Nos anos 90, as locadoras tinham um costume que sempre me enganava. Um filme ia bem no cinema e, meses depois, aparecia na prateleira outro com tema parecido e o mesmo título, só que com um “2” no final. Às vezes vinham o 3, o 4… Não eram continuações oficiais, só usavam o título. Acredite, era assim mesmo. Foi mais ou menos isso que eu senti com “A Queda 2”.

O primeiro “A Queda”, de 2022, fez sucesso fora do cinema (e até do streaming) quando virou um dos mais baixados em sites piratas. Motivado por sucesso estranho, o 2 mira o que o primeiro não acertou: o cinema e o streaming. Por isso está preso ao primeiro ao repetir o que deu certo sem ser igual. Copia, mas faz diferente, quando na verdade o desejo era só copiar mesmo. Fica um negócio estranho!

Scott Mann, diretor do primeiro, volta como roteirista. Sai a antena, portanto o charme do primeiro, entra um paredão sem vida e profundidade. O que vimos no primeiro filme vira gatilho emocional para pôr uma nova dupla em outra enrascada. Mas o carinho pela irmã e a amizade com a nova parceira foram construídos fora da tela, e fica difícil aceitar tanta decisão rápida e esdrúxula. As ligações com o filme anterior são tão mal costuradas que parece um roteiro avulso encaixado como continuação.

A escalada profissional anda em alta. Um dos eventos mais curiosos de 2026 foi Alex Honnold subindo um prédio ao vivo, e ele já tinha brilhado antes em “Free Solo”, documentário que levou o Oscar. Ver isso ao lado de “A Queda 2” deixa mais claro ainda o que ele deixou de fazer. “Free Solo” transforma a pedra fria em personagem e em guia do que a câmera pode fazer. “A Queda 2” tem um paredão chapado, sem profundidade, e um caminho mequetrefe de madeira. Como o filme aposta no amadorismo das personagens para criar drama, a escalada nunca vira parte da história e o, o filme, nunca sai do lugar comum do tema.

Não gosto do primeiro filme, mas teve uma época em que eu assistia a vídeos de jovens subindo antenas altíssimas, e aquilo me dava um frio na barriga curioso. Mesmo bagunçado, o primeiro “A Queda” me devolveu um pouco dessa sensação. Além disso, devo reconhecer o excelente trabalho criativo de tirar tanto de tão pouco. Agora, nesse paredão, essa vertigem some. A ideia de alguém ilhado no céu era muito mais potente. Para piorar, tecnicamente, a continuação deixa a computação gráfica bem mais evidente. Perdeu o charme.

Acho o filme problemático no próprio conceito. Ele trata a escalada como uma forma de enfrentar o medo e defende que encarar o perigo pode devolver o controle a alguém traumatizado. É como dizer que quem tem medo de levar tiro supera esse medo levando um tiro. É um senso comum, entre outras coisas, perigoso.

Reconheço que a gravidade, as estruturas instáveis, a altura e a câmera na perspectiva das personagens criam uma ameaça física razoavelmente eficaz. Mas a tensão some rápido quando você para para pensar no porquê de elas estarem ali.

Sem um roteiro que se sustente e sem o pouco que funcionava no primeiro, sobra mesmo só o título para “A Queda 2: No Limite”.