Pensei que, pós-pandemia, o cinema ia explorar muito aquilo de maneira direta. Não foi por aí. Foi geralmente por alegoria, meio que com medo, sei lá. Quando não era alegoria, eu sentia o autor olhando para a própria vida, como Spielberg em “Os Fabelmans”, por exemplo. Era um jeito de olhar para a própria finitude diante de um tempo tão sombrio, ou de contornar aquele momento nefasto em vez de encarar de frente. A realidade foi difícil o suficiente. Por isso, a franqueza de “O Amor de Sua Vida” chama atenção, pelo menos inicialmente.

O filme é dirigido por Rachel Morrison, de “The Fire Inside” e primeira mulher indicada ao Oscar de fotografia, e tem Ryan Gosling entre os produtores. O roteiro é de Julia Cox. No elenco, Margaret Qualley, Gabriel Basso, Aaron Pierre, Patrick Schwarzenegger e Catherine Keener. A história cobre uma década da vida de Maya, personagem de Qualley, dividida em três atos, cada um com uma fase e uma relação.

O começo é de comédia romântica, com todos os ingredientes do gênero no lugar e um namoro com Charlie (Gabriel Basso), que avança rápido demais. Essa pressa é proposital. Serve para dar a sensação de que aquela felicidade está deslocada. Logo vem a pandemia, e o filme apunhala o espectador. Maya passa o vírus pro namorado, ele morre no hospital e ela só pode viver aquilo pelo telefone. A partir daí, o filme se revela.

Maya deixa pra trás a família que tinha acabado de ganhar e passa a viver de cidade em cidade pela Europa, se sustentando com consultas de telemedicina. É uma nômade digital provinda da pandemia, que transforma o luto em fuga e em excessos. Tudo parece meio descartável para ela, inclusive ela mesma.

O filme que se passa em Boston é mais funcional e a fotografia acompanha isso. Na Europa, vira cartão-postal. É como se Maya só saísse na melhor luz do dia. Os homens que cruzam seu caminho parecem saídos de catálogo. Entendo a abordagem flertar com a ideia de (re)descoberta da personagem, mas também percebo ambiguidade.

Dá pra defender que esse brilho é o mundo visto por alguém desligado da própria vida, que é justamente o que Maya tenta fazer. Só que a direção gosta tanto disso que fica difícil saber se está criticando a fuga dela ou venerando a ideia de não assumir responsabilidade nenhuma, boa ou ruim.

Talvez porque Rachel Morrison valorize muito a fotografia, já que é sua origem. Mas, a beleza desse segmento me deixa mais com ranço do que qualquer coisa. Ao mesmo tempo, faz pensar. Que diferença faz a responsabilidade de um ou de outro em mais uma vida que a pandemia deixou pelo caminho?

Quem quebra essa visão mais falseada do filme é Catherine Keener, que faz a mãe de Charlie. Mesmo aparecendo pouco, muda a pegada da estética das atuações. Briga, cobra e deixa o filme mais honesto do que qualquer viagem da protagonista. A cena em que ela grita do lado de fora do apartamento enquanto Maya fica calada é impactante. As duas personagens mostram duas formas de luto, a que fica e a que foge.

É evidente que o roteiro faz isso para agradar os dois lados: os mais ferozes, que se identificam com a mãe, e os que aliviam a barra de Maya. Embora claramente o filme seja partidário da segunda abordagem.

Margaret Qualley tem uma atuação contida (como sempre!). Seja qual for o papel ela faz isso. Aqui, muitas vezes, a contenção vira vazio. Vazia a personagem não é. Ela guarda demais, é fechada. É diferente de ser vazio! Baú vazio pode estar aberto ou fechado que não faz diferença. Só que nem sempre eu vejo Qualley fechada. Às vezes, vejo simplesmente apática.

O filme sabe que Maya virou um monstro de tanto fugir (ela mesma diz isso), mas não tem coragem de sustentar essa antipatia até o fim e, na reta final, tenta limpar a barra da personagem. De novo volta aquele dilema: ela merece ou não assumir o trauma?

“O Amor de Sua Vida” tem uma ideia boa e é franco ao tratar um assunto complexo. Viver a pandemia como o trauma que todo mundo quis enterrar tem força, só que a embalagem é bonita demais pra isso. É cruel no texto e contemplativo demais pra tanto horror. Um nascer do sol num banho de sangue continua bonito. Só não sei se é pra ser apreciado.