Um jovem precisa ganhar dinheiro a qualquer custo, e para isso, participa de lutas clandestinas. Clandestinas e combinadas. Só vence quem o dono do evento quer. Usando sua máscara de gorila, mesmo sendo muito bom no que faz, só resta ao protagonista apanhar. Ele também guarda um segredo que podemos ver no seu corpo machucado, e há nele uma vontade de vingar o que lhe causou isso.

Essa é a sinopse de “Fúria Primitiva” (Monkey Man), a estreia de Dev Patel (“Quem Quer Ser um Milionário”) como diretor e roteirista. Aqui, ele também protagoniza.

Comecei dizendo que “Fúria Primitiva” quer muito ser “John Wick”, mas é preciso ser justo: desde que Keanu Reeves resgatou sua carreira no cinema de ação, muitos filmes querem ser “John Wick”. É uma obsessão até do ponto de vista comercial, não só estrutural. Algumas vezes funciona, como em “Anômimo”, por exemplo. Dessa vez, essa obsessão não fez bem.

Muito é referenciada de maneira forçada e o que é bom de verdade vem de algo que só a origem do autor desse filme permite fazer. Seu lado indiano, no caso. São os assuntos voltados a essa região ganhando o tema que faz ele ter alguma assinatura. Quando o protagonista tenta ser menos figurão da ação e mais um sujeito daquele contexto, aí sim temos autenticidade.

A ação em si tem altos e baixos. Dev Patel, dirigindo a si mesmo, parece querer atingir novos espaços com os quais antes nunca lidou tanto, mas isso resulta na falta de carinho estético em algumas cenas. Talvez pela falta de experiência em construir ação em si. Esse é um cinema muito específico e muito difícil e estrear nele é uma tarefa complicada. Isso apareceu em tela algumas vezes. As coreografias são boas, mas a câmera não as valoriza. São muitos planos fechados e inquietos que desvalorizam várias situações. Não precisava, pois as situações criadas partem de um lugar naturalmente genuíno.

A Índia como cenário é perfeita para entregar um filme bruto. Lembra a sensação que tive vendo “Ong-Bak”. A ideia do protagonista falível é revigorante em meio a tantos brucutus que só batem e não apanham em tantos filmes de plástico. “Fúria Primitiva” tem problemas em construir sua ação, mas quando atinge o nervo, definitivamente não é de plástico, não é só mais um. É real, ainda que não seja. O que me leva à pergunta de novo: por que esconder e bagunçar essas cenas se a matéria-prima é tão boa

A ideia da fotografia nem é de todo ruim. O filme busca retratar essa Índia bagunçada e obscura, como se o diretor estivesse dizendo: “Olha, esse local nunca vai ser tão claro quanto Hollywood precisa.” Portanto, vale dizer, esse meu sentimento geral para com o filme pode vir de uma comparação com outros do gênero. Mas reitero: eu ainda preciso ver o que está acontecendo para sentir. Se não, fica só na ideia, como muita coisa na cinematografia escolhida por Dev Patel e o fotógrafo Sharone Meir (“Whiplash”). Toda essa escuridão tem um motivo, mas também atrapalha e parece uma fuga de conseguir mostrar melhor o que tem a oferecer. Inclusive, essa crueza vai até contra muitos filmes indianos de ação que tentam se esconder em construções mais novelescas ou nonsense.

A narrativa é frouxa e, agoniada para referenciar tanta coisa, muitos temas interessantes ficam jogados. Sem consistência, o roteiro parece mais um livro sendo folheado. Não paramos para entender nada. Bom é perceber que, se o cineasta quiser, ele tem muitos elementos para construir uma curiosa autoralidade (espero por isso).

“Fúria Primitiva” é um bom filme, mas mira muito nas referências erradas. Olhar para dentro em vez de para fora seria mais rico. Dev Patel não estreia tão bem na direção como várias outras estreias de atores nesse cargo, embora ao mesmo tempo apresente alguns assuntos que talvez, só talvez, se fossem mais bem aceitos, teriam colocado-o num ambiente muito autêntico e de muito valor.

Nem todo filme de ação precisa ser “John Wick”. Inclusive, se “Fúria Primitiva” aceitasse mais do que se aceitou, te digo, outros iriam adorar ser “Fúria Primitiva” daqui pra frente.