Tem livro que a gente lê e tem livro que lê a gente. “Cem Dias Entre Céu e Mar” me ensinou que uma mania que eu achava defeito estava certíssima: planejar tudo, até o ato de planejar. Eu já indiquei esse livro para muita gente por isso. Então eu entrei no cinema para ver a adaptação com o coração na mão.
O livro conta a história de Amir Klink, o primeiro navegador a atravessar o Atlântico Sul sozinho num barco a remo. O filme é “100 Dias”, de Carlos Saldanha, diretor de “Rio” e “A Era do Gelo”. É o primeiro filme dele fora da animação.
Toda adaptação perde alguma parte, e eu não gosto de gastar muito tempo nisso. Mas vale dizer que ficam pelo caminho os detalhes da cabeça do Amir e a preparação, com todas as suas coincidências, que no livro é tão interessante quanto a travessia. O filme já parte pequeno daí. Não é um grande demérito, porque o recorte que ele escolhe funciona em grande parte, mas faz falta.
Fazer cena de mar não é fácil. Às vezes dá para perceber o tanque de água e o fundo verde; muitas outras, não. Depois de uma hora de filme, essa inconstância já não incomoda, embora em muitos momentos eu sinta que o barco de Amir não anda. Tanto que a fotografia fecha o plano justamente quando ele está remando com força total. O barco, o cenário, tudo me parece empacado. Nem o céu, que muda tanto no que Amir escreve, muda muito aqui.

Ao mesmo tempo, o filme é esperto no clima. Começa escuro, pesado, porque os primeiros dias foram os piores, de adaptação, de tempo ruim, de sair da costa africana e pegar a corrente certa. Aos poucos, fica mais rotineiro, mais aberto e também mais quadrado, porque a travessia foi feita de rotina. Nisso, o rádio, o vai e vem dos remos e o dia a dia viram gatilhos importantes para a história acontecer além do protagonista.
Por falar em protagonista, Filipe Bragança faz um trabalho difícil, porque precisa emular a solidão e, ao mesmo tempo, o ímpeto de seguir em frente. Eu já conhecia o trabalho dele, e até a voz está diferente aqui. Ele passou por uma mudança física grande, um trabalho e tanto. Mesmo assim, em alguns momentos eu não sinto que é o Amir Klink que eu li. Pode parecer presunção exagerada de quem carrega o livro na cabeça. Não é, e eu explico.
O filme usa mal o poder da imagem. A gente está no cinema, dava para exagerar, dava para transformar os devaneios do livro em ápice. Ele não exagera, para se manter ancorado na realidade, e tudo bem. O problema é que também não aprofunda a parte técnica que o livro carrega, e aí não fica nem lá nem cá. Nem no lúdico nem no prático. O homem pequeno no oceano gigante, o alienígena no meio do mar, eu não sinto aqui. A imagem gasta tempo com o que é fácil de imaginar, como tratar assadura, calo nas mãos ou unha do pé. O que é difícil de imaginar, o medo e ele domando esse medo, o apuro técnico com o plano, passa ao largo.
O conflito também me deixou em dúvida. O filme usa a relação com o pai para justificar a viagem. Para mim, o conflito sempre foi ele contra ele mesmo: eu tenho um plano, eu vou fazer. O próprio filme sabe disso, quando ele resolve uma situação dizendo que tem o melhor plano e o melhor barco. O pai vira mais uma âncora do que um coração. A relação com a mãe, inclusive, me parece muito mais profunda.
A transformação do Amir chega quase falada, principalmente quando ele vira um amálgama com o oceano. Sem o apuro do plano, sem a profundidade técnica, sem a sensação de que o barco realmente anda e sem dar vazão aos devaneios, o filme fica muito pequeno para mim. Não rasga o peito.
“100 Dias” é um filme ok. O final não recompensa. Não precisava ser uma festa, porque o Amir, aparentemente, não é desse tipo. Podia ser uma catarse para dentro, do tamanho daquele barco. Mas o filme é pequeno demais para um feito tão grande.