O patriarca de uma família trabalha numa das fábricas espalhadas pelo Japão e retorna para casa todas as noites. Em um desses retornos, junto com sua esposa, eles encontram uma garotinha perdida. Suas lágrimas se misturam com a água da chuva daquela noite. Como os pais não aparecem, o casal leva a menina para passar a noite em sua caótica residência. O que deveria ser apenas uma noite, se estende para duas, três… Com o tempo, a menina mostra ter habilidades para algo que sustentava a família: pequenos furtos nos comércios locais.

Assunto de Família nos envolve em uma desordem mental tão densa quanto a casa daquela família, refletindo perfeitamente os paradoxos que a trama nos obriga a confrontar. Por fora, como o diretor mostra repetidas vezes, a casa é simples, banal, nada demais. Por dentro, há todo o caos, onde sobreviver parece regra.

Da fotografia vai para o texto, porém invertido. A trama nos apresenta uma família moralmente questionável, mas à medida que exploramos suas inúmeras camadas, nossas opiniões sobre eles se transformam. Bandidos! Alguns diriam inicialmente. Com o tempo, você começa a refletir sobre o preço da sobrevivência. O “para que” eles comete os furtos é facilmente perceptível, mas o “por que” permanece oculto por um bom tempo no texto de Koreeda.

Olhando passivamente, é fácil torcer pelo bem-estar da pequena, mesmo que isso signifique aceitar todo o cenário problemático em que ela está envolvida. Então surge a solução aparentemente óbvia do senso comum: se não podem devolvê-la aos pais, deveriam entregá-la ao Estado. Nesse momento, a resposta para os porquês dos furtos aparecem. Eles não veem o governo capaz de proporcionar uma vida digna para a jovem. A família acredita que podem oferecer algo melhor. E a menina, inocentemente, parece aceitar essa percepção. A felicidade com que o diretor envolve o filme evidencia isso.

O roteiro de “Assunto de Família” explora a vida de outros personagens para expandir as motivações da família como um todo. A jovem adulta Aki e a senhora Hatsue são particularmente destacadas para lançar luz sobre outras visões daquele grupo. A composição geral é bem mais heterogênea do que parece inicialmente, revelando motivações que às vezes convergem e outras que divergem em relação às da família principal.

Somos levados por uma jornada de melancolia, dores, paradoxos, alegrias, dúvidas e pesares até que, ao final, somos despedaçados em um emaranhado de decisões muito difíceis. A leveza do filme em contraste à brutalidade dos assuntos é o grande destaque.

É compreensível querer entender por que passamos tanto tempo com essa família, sendo apresentados ao seu pior e ao seu melhor. O difícil é, diante de um final tão impactante, manter um olhar tão desapegado quanto as fontes do jardim da casa, que jorravam água e paz, em contraste extremo com o turbilhão de emoções que o filme nos pede.