Filmes sobre a relação entre cães e seres humanos costumam seguir uma fórmula: choro garantido e melodrama explícito. Este filme traz tudo isso, mas, além do choro previsível, apresenta um estudo sutil sobre como traumas de guerra ferem homem e animal e então os dois passam a se precisar mais ainda.

Acompanhamos um ex-militar americano, interpretado por Brad Pitt, que sobrevive a um acidente de avião no Alasca. Isolados em uma das regiões mais hostis do planeta, ele e seu cão de combate precisam atravessar esse cenário para sobreviver. Essa é a premissa de Coração Selvagem.

Na direção está David Ayer, reencontrando Brad Pitt doze anos após Corações de Ferro, outro filme sobre guerra. Em Coração Selvagem, a ação tradicional do diretor cede espaço ao sobrevivencialismo e ao tom contemplativo e, a partir disso, a direção encontra boas soluções criativas.

Apesar do roteiro simples e melodramático, a direção é competente acima da média para produções do gênero. Boa parte da obra foi filmada em locação, aproveitando a luz natural. Se isso já é complexo com elenco humano, exige ainda mais com um cão em cena quase o tempo todo, entregando uma atuação impressionante em um ambiente difícil de filmar. Tudo bem, o filme tem poucas distrações, o que é bem interessante de perceber, mas ainda assim é bem complexo e tiraram de letra aqui.

Porém, há problemas e trago alguns.

O roteiro nem sempre confia na sutileza da direção e, para forçar viradas mais pesadas, exagera no sofrimento. O trajeto já era cruel o bastante. Não precisava disso. A trilha sonora com esse piano choroso insiste em induzir emoção. Em vez de pedir sentimento, filme bom constrói sentimento. É diferente. O som orgânico do ambiente, uma boa mixagem, o ambiente em si e o excelente cachorro protagonista já estavam resolvendo todas as sensações. Não precisava de mais coisa pedindo sentimento. O contraste com a guerra nos flashbacks, bastariam para o tema.

Brad Pitt não está mal, mas sinto o ator repetitivo no papel do sujeito calado, durão e de bom coração. É um desenho que já vi ele fazendo em várias outras ocasiones.

Voltemos a falar das flores.

O filme acerta demais ao iluminar um tema relevante sob um ângulo pouco explorado. Ou seja, como a guerra destrói não apenas as pessoas, mas a natureza que dela participa sem escolha. Se não basta destruir o homem, destrói também o melhor amiga e, por tabela, destrói mais ainda a humanidade que reside em todos.

Já vi traumas de guerra serem muito bem retratados em humanos, como em Sniper Americano, por exemplo. Mas não lembro dessa perspectiva pelo cachorro. Ver um animal que também carrega as marcas do conflito no corpo e na mente deixa claro que a guerra não é boa para absolutamente ninguém. A ideia de conferir humanidade e intelecto ao bicho para reforçar que a guerra fere a todos fecha bem com isso.

Coração Selvagem é um bom filme para se emocionar, além de um ótimo exercício de direção, com pouco CGI e uso inteligente de locações reais. Funciona bem na maior parte do tempo e oferece uma contemplação honesta sobre um tema conhecido, partindo de uma perspectiva rara. Como em todo filme do gênero, o choro é garantido. Se não vier, procure o cardiologista. Algo está errado com seu coração.