
Uma jovem torna-se freira em um convento isolado na Itália. Ela começa a se deparar com eventos estranhos e, em seguida, descobre-se grávida, apesar de nunca ter tido relações. A partir daí, o convento se transforma em uma prisão e também cada vez mais assustador. Essa é a sinopse do filme “Imaculada” (Immaculate, 2024).
A direção é de Michael Mohan (“Observadores”). Em destaque no elenco temos Sydney Sweeney (“Madame Teia”) e Álvaro Morte (“La Casa de Papel”).
Estamos diante desses filmes cuja premissa é bem melhor do que a execução. Vai marcando suas situações com pequenas cenas de escatologia e tentando sustentar um mistério que nunca ganha peso de verdade. A narrativa se perde tanto que se encontra muito mais tarde numa trama aleatória de fuga. Tentou imitar “A Bruxa”, mas diferente de Ari Aster, o diretor aqui não respeita a atmosfera criada e corre para causar alvoroço marcando a montagem com supostas cenas impactantes. Estranho.

Eu e filme concordamos em algo: religião e dogmatismo são coisas assustadoras, principalmente quando ambas estão juntas em um cenário que, por si só, é intimidador. A jovem presa representa esse sufocamento vindo do dogma, da crença; da necessidade de acreditar cegamente em algo. A fuga responde o que se resta fazer diante dessa pressão e desse terror todo. Ir descobrindo o que está para além das aparências conversa demais com os motivos de dogmas existirem e não poderem ser questionados. O tema do filme é bom. O problema é a agonia em trabalhar esses pontos.
Num dia, temos a jovem completamente afeita à sua fé (e sabemos como fé é aquele negócio avassalador na vida do ser humano); noutro dia, como quem não atravessou o mundo para viver aquela vida, ela está completamente descrente. Pouco justifica a guinada tão grande e depois a força inquietante de fuga. Apenas um acontecimento muda tudo. Muito pouco. É querer muita fé da audiência na capacidade do ser humano oprimido rapidamente perceber-se nisso. Trama e narrativa estão completamente distantes.
O tempo é fundamental em propostas como de “Imaculada”. Porém o tempo é deliberadamente ignorado, poucos diálogos profundos são construídos. Precisamos aceitar aquilo tudo sem questionar muito. O filme é um dogma por si só.
O desespero é tão intenso que, antes de metade do filme, ele já se rende à ação. Por pouco tempo, é verdade, mas é quando minimamente se impõe. Ou seja, estamos diante de uma propostsa de suspense e terror que faz melhor a ação. Já pensou? Para ser “A Bruxa” como queria ser, precisaria apostar mais no clima criado, nas tensões criadas, nos assuntos latentes. O cenário já clamava por aquilo. Todos os elementos do filme estão lá, mas ele rejeita. A montagem abdica muito rápido desse clima e, quando fica distante do terror, do horror e do suspense, paradoxalmente funciona, mesmo que também não aceite isso e tenta voltar. Que confusão.
Passamos tempo demais valorizando a atuação mórbida de Álvaro Morte (desculpe o trocadilho) em detrimento à força que estava escondida em Sydney Sweeney, como mostra a cena de desfecho. Inclusive, dá para se dizer que “Imaculada” não é de todo bom, mas aquela cena final… Sweeney brilha e justifica estar sendo tão escalada ultimamente.
A intenção do filme, embora atingida na cena final, teve que passar por caminhos que não necessariamente levavam a ela. Parecia ter um destino bem definido, mas escolheu rotas que não conduziam claramente a esse fim, e, para alcançar esse objetivo a qualquer custo, forçou o máximo que podia. Falou em um idioma para expressar algo em outro.
Isso acontece quando não se tem muito o que dizer e quer chamar atenção com a forma de dizer. Ou isso, ou porque não sabia como dizer. Ambas as possibilidades são terríveis de se pensar.
A jornada de libertação da personagem daquela realidade mostra que, até o filme, preso àquele contexto, se torna menos do que poderia ser.