“Anora” de Sean Baker é o grande vencedor em Cannes 2024
Sean Baker, com o filme “Anora”, conquistou a Palma de Ouro em Cannes 2024. Estou contente. Sigo o trabalho de Baker desde “Tangerine“, um excelente filme de 2015. Entre os muitos predicados, destaco o making-of: o diretor realizou quase tudo de forma independente e as câmeras foram iPhones. E não era um modelo com mega-ultra-câmeras, era “só” iPhone 5. Uma prova que o “só” é suficiente para o cinema. E deveria ser cada vez mais.
Depois do Tangerina lança o “Projeto Flórida“, que também foi guerrilha. Menos, mas foi. Filme lindo! Sean Baker dirigiu a jovem atriz Brooklynn Prince em cenas não autorizadas dentro da Disney, recorrendo ao uso de um iPhone, já que não era possível utilizar equipamentos de filmagem profissionais. Discuti isso e outras coisas em meu vídeo-ensaio, produzido por um PH com Cabelo que hoje tento ignorar, mas não esse vídeo
“Projeto Flórida” é um banho de cinemão. Revela um lado da Disney raramente discutido, especialmente em uma era em que Disney e Ouro eram praticamente sinônimos na indústria. Aborda temas como pobreza e desejos, maternidade e a hipocrisia do turismo. Tem tanta coisa. Willem Dafoe foi indicado ao Oscar de Melhor Ator. Merecido. Como seria se o filme tivesse mais indicações também. Uma evidência disso? Cannes 2024.
Em 2023, Jonathan Glazer venceu por “Zona de Interesse”, um dos melhores filmes sobre guerra sem mostrar a guerra explicitamente (tá no som!). Agora, Cannes olha para Sean Baker de um jeito que a indústria do seu país (EUA) não havia olhado antes. Não vi “Anora”. Como não viajei para Cannes, não tive esse prazer. Mas não preciso ver e tampouco gostar de “Anora” para entender uma coisa sobre os últimos Cannes: tem mais cinema do que França no mundo e tem bem mais indústria do que os EUA.
Teve forró no tapete
Não menos importante (eu diria até mais!), 2024 é marcado pelo cearense, meu querido Karim Aïnouz, sendo indicado por “Motel Destino”. Dançamos forró no tapete vermelhor dos french! Coisa que Ronaldinho não fez em 1998, Karim fez. Goláço!
Não fui para Cannes, mas tenho a alegria de dizer que paguei pelo menos duas passagens para a França para a comitiva cearense. Porque não sou eu quem deve ir a Cannes. É Karim, que me representa. Prefiro que outros Glaubers também possam ir – só me mandem os filmes preu assistir depois, por favor. Obrigado.
Torço por Déo Cardoso, cujo ato final de “Cabeça de Nêgo” muito me lembra o ato final rebelde de “Projeto Flórida”, ou seja, se Baker merece, olhemos para Déo também. Torço para Pedro Diógenes levar as ruas de Fortalcity para outra praia não tão legal quanto a do Futuro (isso num dia ruim). Para Allan Deberton encontrar mais histórias como “Pacarrete” e mostrar onde tem arte e onde também deveria ter. E um Petrus Cariry que me deixa “Mais Pesado é o Céu” ano pós ano – o cara já fez um “Praia do Fim do Mundo”, imagine em Cannes, aquela praia meio ok meio sei lá. Que todos os cineastas cearenses se sintam representados nessa lista. Por mim ou por Karim.
Por Sean Baker também. Porque, entre o cinema tudo-igual, há mais cinema do que pensamos. Eles não são tudo-igual, pelo contrário. Diferentão que só eles, goste ou não. Esss são o que de melhor ainda está por vir mesmo já estando por aqui. É preciso olhar com carinho (e pagar alguns ingressos de vez em quando também).
Viva Baker. Se eu não gostar de “Anora” quando assistir, que bom que não fui para Cannes.