A escrita tem algo que a fala não alcança. Por isso escrevo, mesmo quando é para um vídeo gravado. É como andar: os pés se movem, mas há uma consciência quieta por trás dessa atividade corriqueira.

A maioria dos meus vídeos nasce de um texto. Um texto lido com teleprompter mesmo. Não escondo isso, na verdade, muitas vezes faço questão de deixar evidente. Quero que sintam que ali houve preparo. Que cada palavra foi escolhida. Que houve intenção, e até certo cuidado. O vídeo é o som. Mas o texto é o corpo por trás da voz. Isso, quero dizer, quando ele existe e é acessado diretamente, não só como apoio, como é nos meus vídeos, mas como matéria, como coisa, ele vibra diferente. Tenho certeza plena disso.

Já li Tolkien, “O Senhor dos Anéis”, etc, tantas vezes. Outro dia resolvi escutar. É diferente demais. Tem uma poesia do autor, um certo deboche vez ou outra, uma sacada que só lendo para ver. E é que essa leitura passou por uma tradução para o português, o que considero uma leve reescrita, por mais honesta, fiel e dedicada que seja. Tem outro ali.

Gasto tempo demais com palavras. Às vezes, cinco minutos para trocar uma por outra. Só pelo som. Pela curva da frase. Pela pausa. Às vezes escrevo com o ritmo de um tipo de respiro específico. Como agora.

Já escrevi um texto sobre casas no Japão, depois de ler um livro antigo e pedante. Fiz o texto parecer igualmente chato. Parecia uma casa cheio de salas inesperadas, corredores estreitos, desvios, lado de fora. Foi um labirinto cheio de parênteses (que geralmente não uso) e travessões – que uso menos ainda; tinha até ponto e vírgula.

Num outro texto, mais íntimo, sobre o filme “Aftersun”, grandes frases e argumentações, vinham seguidos de uma palavra só e então o ponto. Eram meus sentimentos para com o que havia dito naquele momento. Pena que quando foi para a voz ele perdeu metade disso. Lamento.

Num texto sobre corrida, cortei frases como quem corta o ar em cada passada apressada. Acho que isso transborda o papel. Mesmo que o leitor não perceba conscientemente. Ainda assim, algo muda naquela experiência. Penso que a gente percebe muito mais do que os olhos vêem quando se trata das palavras indo direto para sua cabeça. Se eu leio aquilo, sei lá, eu sou intérprete do meu próprio texto e estou cortando um elo teu com ele.

O livro “Mantendo um olho aberto”, de Julian Barnes, fala um tanto sobre isso sem falar tão diretamente sobre isso. Falando doutras coisas, deixa vazar a ideia de como o olhar mais atento vê mais, mas nunca vê tudo. Porque o olhar depende do que já se aprendeu. Não se vê o que não se sabe ver. Falta o filtro. Falta o repertório. E, no caso de se conectar com o texto escrito e o que ele oferece de possibilidades, esse repertório vem da própria leitura. Vem do contato com as palavras de fato.

Hoje a gente lê muito, mas lê no fluxo errado. Legendas rápidas, textos que não foram feitos para durar. Coisas que matam a poesia. Porque toda prosa, me disseram isso um dia, não lembro quem… toda prosa tem um quê de poesia. A poesia, quando lida com pressa, vira barulho. Ou melhor, vira ruído. Ela requer a pausa, não outra em seguida.

Lembro que alguém comentou sobre um texto meu. Disse que, quando citei uma música, parou, botou a música pra tocar e só depois continuou a leitura. O texto mudou, falou também no comentário. “Acertou, miseravi!” Ora, o texto foi escrito em ritmo de passos, já falei, e meus passos naquela corrida estavam sincronizados com aquele som. Uma coisa levou a outra. Fazer o que ela fez foi como se aquela pessoa leitura tivesse pisado exatamente onde eu pisei. Tenho para mim que essa atitude é coisa de quem lê de verdade. De quem tem experiência com as letrinhas.

Lembro que fiz isso com “Watchmen”, quadrinho de Alan Moore. Ele citava músicas, e eu corria atrás delas. Na época, tinha que “queimar” um CD, quem sabe uma “mixtape”. Hoje é só abrir uma playlist no Spotify. Se duvidar já tem até pronta. Pouco esforço, mas o efeito final é o mesmo. A leitura muda. Porque cria-se um novo filtro, um novo campo perceptivo é aberto. Perceba! Eu sei disso porque eu também já fui esse leitor de outros textos, tal como essa pessoa foi do meu texto. O ciclo.

Talvez seja hora de publicar mais o que escrevo. Sobre qualquer coisa. Aqui mesmo. Alí e acolá ou várias vezes. De verdade, não sei e não prometo. Mas publicar eu vou.

Talvez seja hora de voltarmos a ler mais. Porque, quando vocês leem os grandes (e bons de verdade!), meu texto melhora. Eu apenas os imito. Roubo o que posso. Essa mania de falar de corrida junto com música, por exemplo, roubei do Murakami. Tantas outras coisas que faço, que muitas vezes nem disfarço de homenagem, é roubo qualificado do mais alto nível mesmo. Podem me prender por isso.

Mas para isso, leia. Um livro a cada três meses, não importa. Não é corrida de cavalos. Você fazendo isso, eu, um mortal, comum, fajuto, conseguirei ser percebido melhor. Ou pior, o que será mais óbvio de acontecer. Mas serei percebido.

A gente se encontra.