“A Rede Social” tem um dos roteiros mais brilhantes que eu já vi em Hollywood. Dezesseis anos depois, o filme ganha uma espécie de continuação, com o mesmo roteirista, que agora também é diretor.
A história não é mais do jovem que inventou o Facebook. É da funcionária que vazou documentos internos da empresa e do repórter do The Wall Street Journal que transformou aquilo na série de reportagens “The Facebook Files”. Esse é “O Outro Lado das Redes”, escrito e dirigido por Aaron Sorkin.
O filme abre com o mundo que o Facebook alimentou: uma mulher radicalizada pela extrema direita, que ataca policiais e vira mídia com isso. A funcionária descobre que essa amiga chegou lá pelos grupos que o próprio Facebook sugeriu.
A abordagem empolga. Sorkin já se provou muito bem falando de jornalismo em “The Newsroom”, e em vez de um filme de tribunal, como “A Rede Social”, esse se firma como um filme de jornalismo.
O tom é soturno, sussurrado, e combina com a escuridão do lugar pra onde o Facebook trouxe a gente. É um tom meio algorítmico, de que tem algo errado ali. A trilha de Alexandre Desplat lembra muito “Succession”, e em alguns trechos o filme vira até thriller de espionagem.
Pena que um tema tão interessante venha num filme que tropeça bastante.

Ele parece querer falar com quem nunca se aprofundou no assunto, só que fala difícil. “Privacidade Hackeada” e “O Dilema das Redes” já mostraram como as redes conduziram pessoas via algoritmo. Documentário não massifica, então um filme se justifica. Só que, falando mais difícil que os documentários, perde o sentido.
“A Grande Aposta” pegou um tema complicadíssimo e ensinou o público a entender. Esse aqui repete a mesma ideia várias vezes e mistura algoritmo, saúde mental, ambição e ética sem costurar uma coisa na outra. A prova está no final: um letreiro na tela explicando o que o filme não conseguiu explicar em quase duas horas.
Ah, mas é arte! Concordo. Arte pode tudo. Só que Sorkin apostou num roteiro funcional… que não funciona. Se não há espaço pro lúdico, é porque ele quer me vender o fato, e não faz isso melhor do que já fizeram. Nem perto.
Jeremy Strong beira a caricatura, às vezes de si mesmo. O bom ator está se encaminhando pra fazer sempre o mesmo personagem. Mikey Madison faz a funcionária às vezes descolada, às vezes tímida, e o filme nunca decide quem ela é. A câmera ainda a olha de um jeito sensual demais pra quem está em crise. Pela primeira vez, os longos diálogos de Sorkin me entediaram. Jeremy Allen White é o mais interessante do elenco, só que num personagem simples demais pra um repórter mais complexo do que parece.
A crise de consciência de Zuckerberg no fim chega sem preparo e não combina com nada que o filme construiu. O texto quer uma cruzada pela verdade, só que a realidade pune o filme, e ele termina edificante mesmo assim. Zuckerberg e o Facebook saíram praticamente ilesos, e a gente continua aqui, rolando o feed. Assumir o pessimismo seria mais sincero.
Sorkin é talvez o maior roteirista da geração dele, mas ainda não se mostrou um bom diretor. Em outros filmes, o problema era o excesso. Aqui o recorte é enxuto, e mesmo assim os penduricalhos não se juntam. Sigo sem saber qual é o real problema dele dirigindo.
“O Outro Lado das Redes” é um folhetim de um fato que todo mundo já conhece. Nada demais.