Este filme levou 15 anos para chegar aos cinemas e, mesmo assim, esqueceram do roteiro.
A história é de uma adolescente que vê o irmão caçula ser levado por um bando de corvos para dentro de uma floresta proibida. Ela vai atrás dele e encontra um reino de animais falantes à beira da guerra. Quem fez o filme foi o estúdio Laika, o mesmo dos brilhantes “Coraline” e “Kubo e as Cordas Mágicas”, e a direção volta a ser de Travis Knight. O nome do filme é “O Bosque Selvagem”.
Temos aqui um assombro técnico. Há momentos em que, de tão perfeito, é impossível cravar que é stop motion. Ao mesmo tempo, dá para sentir o artesanal aparecendo em tela, mesmo nos detalhes. O filme é um esforço criativo lindo e louvável, ainda mais em tempos de inteligências cada vez mais artificiais.
O núcleo emocional vem da vilã, uma governanta que perdeu um filho e tentou substituí-lo por uma réplica mecânica. Isso, num filme feito com bonecos, é uma baita metalinguagem, como se o filme criticasse a audácia de dar vida ao inanimado e lembrasse que nada vai substituir a vida real. Gosto muito disso, mesmo que não seja tão bem explorado.
Só que todo esse esmero técnico não entrou na sala dos roteiristas nem na dos montadores. Temos em “O Bosque Selvagem” um buraco enorme, que inclusive faz pensar no quanto a técnica pesa na arte.
O filme parece andar num trilho. As coisas acontecem porque têm que acontecer, como se uma mão invisível empurrasse os personagens para dentro das cenas. É bem sugestivo, pensando que são bonecos controlados por mãos, mas aqui falo no sentido figurado. Personagens novos chegam como se a gente já conhecesse cada um. A grande batalha entre as duas visões de governar a floresta chega sem uma trama capaz de sustentar aquela grandeza, e o filme tenta compensar isso com escala visual e com som.
De novo: escala visual num filme em stop motion sempre merece respeito. Mas, sem contexto, fica só no respeito. O elogio eu vou guardar.

A técnica deveria servir à narrativa, e aqui é o contrário. A história se parte muitas vezes, e não porque a narrativa pede. Parece que é porque havia equipes trabalhando em duas frentes. O exemplo mais claro é o colega de classe que acompanha a protagonista. Quando ela sai da floresta, há todo um choro pelo irmão que ficou lá. O garoto, que também ficou perdido, simplesmente some da conversa. Fora dali, ele não tem função.
As canções também chegam do nada, às vezes alegres num momento de terror. Parecem estar ali mais porque a principal é da banda do autor do livro, e porque pode render uma vaga no Oscar, do que por necessidade da história.
É o primeiro filme da Laika com classificação para maiores de 13 anos. Tem tragédia, tem violência, tem criança matando outra. Ainda assim, ele não mergulha na melancolia que poderia ter e segue as convenções de fábula como quem queria mesmo ser infantil. Não é a duração de 2h20 que cansa. É empilhar subtramas sem definir direito o conflito principal e sem sair do lugar-comum.
Eu vejo que, quanto mais artificial o mundo fica, mais o orgânico precisa ser melhor do que já era. Na construção dos bonecos, este filme fez isso certinho. No lado criativo, no lúdico, não. E é essa segunda parte que faria o filme durar.
“O Expresso Polar”, em 2004, também foi vendido pela técnica. “Kubo” tem um stop motion um pouco menos sofisticado e emociona muito mais. “A Fuga das Galinhas” é eterno com bem menos traquitana. Técnica conta, mas não sustenta nada sozinha. A aura que o filme procura no processo mora, no fim, na história. Sempre vai ser assim. “Cidadão Kane” não seria nada se só tivesse planos-sequência maravilhosos. Não é sobre isso.
“O Bosque Selvagem” levou 15 anos para deixar cada pena de uma águia no lugar, e fez bem. Faltou o resto.