Um perfil de memes capturou um print de um comentário satírico que fiz em um vídeo do Linck e…

Um perfil de memes capturou um print de um comentário satírico que fiz em um vídeo do Linck. Participei do vídeo fazendo uma encenação com vários outros canais. Fingiamos desgostar do Quadrinhos na Sarjeta para comemorar os 5 anos do canal. Cuja veia é fazer bait e usá-los muito bem a favor do bom conteúdo. Um gênio.

Nos comentários do vídeo do Alê, o caos tomou conta com a brincadeira que fiz. Saiu do controle. Muitos comentários eram zoeira e entenderam a referência a Ítalo Sena do “aguarde o processo”. Porém, um número grande de pessoas aproveitou a oportunidade para me difamar e expressar ódio. Nem assistiram ao vídeo, por certo. Alguns que assistiram voltaram para pedir desculpas. Quantos outros, não sei. Sumiram e deixaram aquela impressão mesmo (dane-se, afinal, isso é terra de ninguém).

No Twitter do Cinefilos Posting o mesmo ocorreu. Os comentários e os retweets viraram um caos da galera jogando hate gratuito achando mesmo que eu ia processar uma pessoa que considero amigo. O recorte foi o suficiente, mas mesmo o recorte contextualizado no vídeo gerou a mesma coisa. Porque ódio vende. E nisso, vários que simplesmente me odeiam surgiram pra dizer: sempre achei ele isso, isso e aquilo outro.

Internet. Terra de ninguém, melhore. Eu tô tentando melhorar. Preciso e vejo como é difícil. Mas tentem também! Custa nada.

Os que tiram conclusões gerais a partir de recortes são os mesmos que reclamam do mundo das fake news. Apresentam-se como pessoas humanitárias e solidárias, assistencialistas (!), mas condenam qualquer um sem saber metade da história (e sem nem procurar saber). Porque a internet é isso: um sistema interminável de micro-satisfações. Passam para o próximo como quem muda de canal buscando algo interessante para assistir. Não tem aprofundamento jamais. Se acolhem no enxame para bagunçar o alheio e depois partem para outro. E outro… e outro.

Basta que alguém recorte uma foto de um cachorro mordendo algo para pensarem que esse cachorro está atacando alguém. Era apenas uma bolinha. Ele estava brincando!

Não é a primeira vez que me deparo com a incapacidade das pessoas de entender ironia, e certamente não será a última. Eu tenho dificuldades também. Mas daí a já jogar as pedras, são outros quinhentos.

Nessa de ironia e sarcamo, já fui tanto cancelado quanto exaltado pelo exato mesmo motivo: escrever uma carta aberta a Rodrigo Hilbert (uma velha história que até me levou a ser convidado para um programa de televisão, fama que recusei). Em um vídeo sobre os piores filmes do final do ano, interpretei um personagem frustrado com tantos filmes ruins. Como esperado, muitos não entenderam. Surgiram textões discutindo o futuro da crítica de cinema. Eu ria e me assustava ao mesmo tempo.

Mas é isso. A internet está doente. Recortes são vistos como o todo, porque há a ânsia por esse todo, mesmo que ele não exista. É o que fala Byung Chul Han em “A crise da narração”. As pessoas precisam do começo, do meio e do fim, e quando uma história não dá isso (ou porque o sujeito não foi atrás de entender ou porque ainda não se tem uma história completa), uma fake news ganha a atenção e a verdade. Porque o falso pode ser completo quando bem entender.

Ironias são interpretadas como verdades. Metades de histórias são transformadas em narrativas completas em contextos totalmente diferentes. Qualquer contexto serve para aqueles sedentos por cancelar alguém. A quem cria, eu digo: nunca erre. Você não tem o direito de evoluir: é esperado que nasça perfeito. Nunca há tempo para melhorar.

A internet é como uma grande praça pública onde todos gritam e ninguém realmente se ouve. Quando alguém é ouvido, é apenas parcialmente, se muito. As relações dentro dos pequenos grupos são mal compreendidas. Atiram para todos os lados. Chegam a conclusões pegando pedaços da gritaria. Vociferam indignação sem sequer saber o motivo. Tudo se transforma em um zumbido gigantesco, como um grande enxame de abelhas. Seguem cegamente para onde um líder aponta, atacam sem questionar e continuam até que também pereçam. O problema é que nesse caso o ferrão cresce de novo. São abelhas digitais.

***

Esse texto tem até epílogo.

Olha só essa lenda aqui.

Aí agora olhe bem como eu fui soberbo:

Isso foi ser soberbo. Duas palavras: gente do céu. Foram três, perdão. É sério, turma, menos.