A Niuslerer do PH é um texto que pode incluir indicações e reflexões, ou simplesmente conter o que vier à mente no momento em que se decide escrever.

Meus vídeos estão cheios de palavras que escrevi com tremendo carinho, mas que muitos nunca vão perceber. Isso é angustiante.

Quando a palavra vira som, ganha outra forma. Quando ainda está apenas ressoando na caixa onde fica nossa voz interior, o sentido é outro. Ora, essa voz da nossa cabeça não tem sotaque, não tem forma; sequer a ouvimos, apenas sentimos o que ela está ‘querendo dizer’.

Imagine que eu escolhi usar a palavra ‘dor‘ em um dado momento. Entre ter escrito a palavra ‘dor‘ e ter lido-a com certo desdém para gravar o vídeo da vez, perdeu-se muito da sua individualidade para o entendedor (ou para o não entendedor). No momento em que minha leitura pediu desdém, o peso da palavra foi minimizado (ou encapsulado). Se você apenas lesse, essa palavra teria significados necessariamente diferentes daqueles que impus ao eu mesmo lê-la.

Ainda que se conheça minha voz, meu padrão, meu jeito de falar e de ser, e ainda que pense que, por conhecer isso tudo, se está lendo como eu leria, não se engane: ainda é sua voz que você nem ouve direito me imitando – é a sua voz, só sua. Esse processo de imitação mental, ainda que soe perfeitamente igual a como eu falaria, vem da compreensão basal do que você sente a partir da palavra que eu escolhi. Ele passa pela provável intenção da palavra que agora se anexa a uma simulação mental de quem eu sou, mas termina em uma imitação que te levou pelo caminho que eu precisamente queria: o seu caminho. Só seu. É a sua voz!

Confuso né? Deixa assim. Um dia se resolve.

O peso da palavra, esse é o assunto. A impermanência do texto, esse é o ouro!

A fluidez do texto lido por quem não o escreveu é completamente diferente da fluidez do texto lido por quem o escreveu. É diferente, pois, no mínimo, há antecipação. Antecipação é a espada encravada no bucho da surpresa. Surpresa não se antecipa, mesmo que o cinema teime o contrário; mas lá é audiovisual, aqui o papo é outro, entenda.

A surpresa não se antecipa, porque, a bem da verdade, tudo é surpresa quando não se sabe o que virá a seguir. Não é preciso que alguém grite ou que balões sejam estourados tão logo se abre a porta de casa no dia do aniversário. Se o escritor ler o próprio escrito, a leitura vira o estrago da surpresa de quem apenas lê.

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Fui ler Junichiro Tanizaki, mais precisamente “Em Louvor da Sombra. Daí nasce essa reflexão dos caminhos impermanentes da palavra.

Venderam-me esse ensaio de Tanizaki como arrebatador. Disseram que ele moldou a escrita japonesa e até outras formas de arte. Além do que eu já conhecia desse autor, cuja tradução de suas obras ajudou a introduzir a literatura japonesa a um público mais amplo para além da ilha, afirmavam que ler ‘Em Louvor da Sombra’ era percorrer palavras do mesmo jeito que um rio corre. Ou seja, sempre igual, mas sempre diferente. Com o livro em mãos, fino como era, fui ansioso.

Quando você vai ler um autor tão consagrado, sobretudo em um ensaio de 1933, espera-se o auge da alucinação ou algo parecido. Durante duas ou mais páginas, porém, fui levado a ler sobre banheiros. Mais precisamente, sobre a diferença entre o banheiro tradicional japonês e o banheiro ocidental (europeu, penso eu). Tornei-me especialista em algo que nem sabia que precisava ser (e ainda não preciso); até sobre calefação eu aprendi. Tanizaki ensinou inclusive a fazer sushi de um jeito diferente.

“Construída invariavelmente longe do corpo da casa, à sombra de arbustos e em meio à folhagem e ao musgo de verde fragrância, a ela se chega transpondo corredores, quando então, acocorado em meio à baça claridade refletida pelo ‘shoji’, considero simplesmente indescritível a sensação de contemplar o jardim pela janela e me perder em pensamentos.” (Em Louvor da Sombra, Junichiro Tanizaki)

O ensaio não é sobre isso, é evidente. É também sobre isso. O ensaio é sobre o tradicional versus a modernização, talvez o tema que mais se repita em um Japão que permanece no ontem, hoje e amanhã, tudo ao mesmo tempo.

Ele está falando das dificuldades de se fazer uma casa de arquitetura tradicional japonesa se encaixar nos moldes do moderno e do que se abre mão quando não faz isso. Discute-se o banheiro, limpo versus límpido, velho versus sujo, sujo versus moderno, e por aí vai. O ensaio é um passeio indescritível entre um assunto que leva ao outro de um jeito que nem em 20 vidas eu conseguiria escrever com tamanha qualidade.

A frustração constante de não receber desse mestre claramente, diretamente, expositivamente o assunto que eu queria (ensine-me a escrever, seu desgraçado!), aliada à impaciência de ser levado página após página para uma visão mais detalhada sobre outra coisa que já era detalhe de outra coisa, deixava minha cabeça num pé e noutro (inquieta, traduzindo para não cearenses).

Tanizaki sabia disso. Ele sabia que não estava falando apenas para japoneses e menos ainda para o ano de 1933. Não à toa, 90 anos depois, estou eu aqui questionando como os caminhos da palavra não seguem nem o que o autor quer nem o que o leitor quer. Segue o caminho dela. Do jeito dela. No tempo dela. Na ironia dela. Se você achar que ele está escrevendo sobre casa japonesa, não sei não, hein.

Tentar guardar a palavra, nesse e em vários casos, tentar imitar o seu desejo inicial ou até a voz do autor, é falhar continuamente com a primazia da matéria-prima. Ela já está pronta para que outra coisa esteja pronta.

Chego a essa conclusão depois de ter lido Tanizaki falar sobre objetos de cozinha cintilantes, sobre como a polidez destrói a história do objeto, sobre o banheiro de mórbidos azulejos brancos em contraponto ao banheiro construído na mata, cujo frio atrapalhava as idas noturnas enquanto ajudava a reflexão, sobre o material usado para fazer a louça, sobre usar vidro ou papel em determinadas janelas e vários outros detalhes que, enquanto lia, pareciam me afastar cada vez mais do meu objetivo inicial: eu quero aprender a escrever, agora, nesse instante, não posso perder tempo. Cadê o botão de download?

“E para experimentar tal êxtase não há em minha opinião lugar mais adequado que uma latrina em estilo japonês” (Em Louvor da Sombra, Junichiro Tanizaki)

Pode rir. Eu também ri.

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Eu ri porque sou tolo. Você também. Havia palavras, sentenças, cuja profundidade estava completamente diluída na minha incapacidade de perceber que eu estava lendo sobre arte, cultura e escrita enquanto lia sobre banheiros. Na segunda lida, sem a frustração e a pressa acasalando em minha mente, achei o que queria.

“Com sua ímpar capacidade de tudo transformar em poema, nossos antepassados acabaram por converter em ponto de extremo bom gosto o mais insalubre aposento da casa, unindo-o a manifestações de incomparável formosura da natureza – flores, pássaros, brisa ou lugar – e a uma cadeia de concepções poéticas repletas de nostalgia. Comparada à atitude ocidental de ver a latrina como algo deletério, impróprio até para ser citado em público, a nossa é mais sábia, compreendeu o substrato do requinte.”
(Em Louvor da Sombra, Junichiro Tanizaki)

Aqui a arte sai dos olhos e das palavras escolhidas apenas por Tanizaki. Leiko Gotoda, que o traduziu dessa vez, entregou o que eu buscava (e nem sabia até saber!).

Substrato: substantivo masculino. Essência, natureza íntima. O que resta após uma transformação; resíduo, resto.

Resto! “Substrato do requinte”. O banheiro é o resto do requinte.

Requinte: substantivo masculino. Ação ou efeito de requintar(-se). Excesso de aperfeiçoamento, apuro extremo.

O banheiro tradicional japonês é, portanto, o que sobra do excesso de aperfeiçoamento. (É sobra!) É o restante do apuro extremo. É a transformação do que o ocidental vê como “deletério, impróprio até para ser citado em público”. Sobra. Formação. Banheiro! Captou?

Estudando Tanizaki, acabei aprendendo com Gotoda-sensei. Nas notas do livro, ela explica.

“Deparei diversas vezes com a palavra ‘furyu’, cuja acepção mais comum, segundo dicionários bilíngues, é ‘elegância’, ‘bom gosto’ , ‘requinte’, ou ainda, ‘elegante’, ‘fino’, ‘requintado’. Tanizaki tem certa predileção por esse termo e já o empregou em diversas outras obras nesse sentido estrito. Aqui, porém, notei que ele a usa também na segunda acepção, isto é, para significar ‘poético’ e ‘estético’. E no trecho em que o autor discorre sobre latrinas, ‘furyu’ subentende ‘furyu inji’, expressão que o Dicionário da língua japonesa define como diversões requintadas, apreciação da natureza e sensação de prazer advinda da composição de versos e poemas. No referido trecho, traduzi portanto a frase do escritor Ryoku Saito citada por Tanizaki, ‘furyu wa samu-ki mononari’ (‘a elegância é fria’, em tradução ao pé da letra, no meu entender inadequada em português), como ‘o frio estimula a estesia’, pois julgo que nesse contexto o termo ‘furyu’ pode ser sintetizado como ‘estesia’, no sentido de capacidade de perceber o sentimento da beleza, conforme o Houaiss.” (Nota da Tradutora, “Em Louvor da Sombra”)

O ‘sentimento da beleza’ foi percebido a partir de Gotoda-sensei, que ensinou que uma palavra só existe, ainda que seja sinônimo de outra, pois o sentido dela vale tanto quanto o sentimento que atribuímos a ela. Caso contrário, todas as palavras já teriam se juntado em uma só: ‘coisa’, que serve para tudo e, ao mesmo tempo, não quer dizer nada.

Com todo respeito a Tanizaki, mas, ao final, eu poderia apagar todo o livro e ficar apenas com o sentido de ‘furyu’ escolhido pela tradutora – ou com o requinte que ela deu ao já requintado livro. Pensar que passei de furioso a entender o sentimento mais puro do substrato de Tanizaki me faz refletir o quanto eu queria ter Leiko Gotoda’s no meu caminho para, quando escrevo, ser bem mais do que posso ser.

“(…) sem falar que a limpeza do que vemos nos leva a pensar naquilo que não vemos. Eis por que continuo achando que lugares como banheiros devem ser envoltos numa suave penumbra que torne vaga e imprecisa a linha entre o higiênico e o não higiênico.”
(Em Louvor da Sombra, Junichiro Tanizaki)

Quem pensa que eu escrevo apenas sobre o que parece ser o tema – filmes, séries, animes, livros – está sentado em um vaso branco colocado em um banheiro igualmente pintado de branco. Sem vida. Escrevo o que você lê, entenda de uma vez por todas. Não entender é entender do seu jeito. Agora, fazer nada com isso é tão interessante quanto limpar o sebo de um objeto que tem anos de existência, ou seja, não é nada interessante.

Há quem encontre os trechos perdidos que parecem pertencer ao episódio da semana de Zom 100 quando pertencem na verdade ao que quero dizer (sem dizer). Há quem pense que é difícil demais entender algumas coisas quando, na verdade, difícil mesmo foi fazer. Gotoda-sensei prova isso. Tomara que descubram ‘o que eu não quis dizer’ enquanto eu ainda estiver vivo, mas se não, tudo bem. Foi legal fazer.