Vivo um futuro extremamente líquido para um jovem que não sabia o que ser. Meu eu-jovem não previa sequer a possibilidade de ser o que é (e é muito bem, obrigado).
Não lembro de responder com veemência, quando muito jovenzinho, o que eu queria ser quando crescer. Mas, depois de menos jovenzinho, uns 16, faltando um ano para marcar o que fazer no vestibular (e a segunda opção – não era ENEM, na época), comecei a pensar sobre o que ser. Eu gostava de ler, então ouvi um perdido: “quem gosta de ler, se dá bem em História!”. Fiz isso sob duras penas, alguns vais e voltas. Mas trapaceei. Na História só queria cinema. Toda e qualquer matéria eu inventava de fazer alguma coisa relacionada a isso. Quando não podia: “oh matéria ruim!”.
Noutro dia uma jovenzinho junto com sua mãe, disse: “Eu quero ser Youtuber!”. A mãe complementou: “Que que eu digo para esse menino de 13 anos, hein?” Eu olhei, dei aquela risada soltando pelo nariz, e respondi que não fazia a mínima ideia: “Ah, eu queria ser Historiador, mas acabei no Youtube. Por enquanto é só ir estudando mesmo!”. Dei uma bagunçada no cabelo dele, a mãe sorriu, mas tenho a impressão que ficaram tristes; mãe e filho.
Fui rude? Fiquei pensando. Será que daqui 10 anos esse jovem vai fazer um exposed meu? Olhe onde estou hoje, aprecie minha vitória, mwahahahaha.
Vamos combinar qual era o certo, certo mesmo? “O Fabuloso Destino de Amélie Poulin”, mas nem isso eu poderia indicar para o de 13. Até isso ele teria que esperar um tempo. “Amélie” tem resposta para algumas perguntas que eu me fiz ao longo da minha jornada. Ela é um exemplo perfeito de alguém navegando pelas incertezas e complexidades da vida “moderna”. Ao passo que busca propósito e amor em um mundo muitas vezes inesperado e incomum (a caixinha!), ela está todo tempo se adaptando e buscando novos jeitos de se encontrar nisso.
Mal sei o meu caminho. Foram tantas curvas, tantos atalhos e tantos percursos errados que eu só posso ajudar quem já está em um desses caminhos. Quem ainda quer estar é difícil para que eu imagine como poderia ser ou deixar de ser; não sei nem quais portas peguei direito. Quando eu era jovenzinho, meu único caminho era de casa para o colégio e vice-versa. Que outra dica eu poderia dar? Sinto que perdi tempo de um lado, mas foi o que me deu sustentação para fazer o outro lado um dia funcionar. Como ensina isso? “Olha, tá vendo essa rua? Não é essa, mas você vai entrar, errar e depois achar a correta.” É assim?
Devemos abraçar a liquidez do futuro, ou que ele “em movimento sempre está”, como diria Mestre Yoda. Já me pediram consultorias, já me pediram tutorias, já me pediram cursos de “seja um Youtuber!”. Esse ano vou dar consultoria para algumas pessoas (foi meta do livro), mas espero que entendam: não sou Youtuber, não vai ser sobre isso. Nem sei onde pega esse crachá. Eu apenas escrevo, publico, e escrevo de novo e publico de novo. Só que publico lendo, diferente de publicar escrevendo. Consegue entender?
Vivemos realidades que nem sabíamos existir a possibilidade. Temos que cada vez mais nos moldar aos recipientes que aparecem e, semana que vem, o recipiente já mudou novamente. Pra que ensinar Youtube então? O que me trouxe aqui para esse negócio de Youtube, ou para falar da única coisa que eu amo desde que sou jovenzinho, foi ir me adaptando como “quem queria nada”. Foi ir achando brechas e me fazendo presente antes mesmo de conseguir ser por inteiro.
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Exclusão irrevogável
“O progresso se transformou numa espécie de dança das cadeiras interminável e ininterrupta, na qual um momento de desatenção resulta na derrota irreversível e na exclusão irrevogável.” (Tempos Líquidos, Zygmunt Bauman)
Minha mãe é uma gênia. Ela dizia assim quando eu falava sobre as possibilidades do que eu queria ser: “só não pode é ser nada!” A partir daí, me apoiou em tudo. Eu também penso que, dada a origem dela e de minha família, a possibilidade dela ser o que foi era muito baixa. Sendo assim, qualquer coisa além “de nada” para ela já seria o suficiente. O que eu fui? Nada! Explico.
Ora, se lá quando eu tive que escolher ser algo não tinha para marcar a opção que exerço agora, é porque, para aquela realidade, eu fui nada. Contrariando minha mãe, eu fui o que estava por vir. O que ainda iria acontecer. Eu dancei com as cadeiras que dançam de forma “interminável e ininterrupta”. Abracei a liquidez do tempo, mas antes disso, aceitei estar em várias cubas de gelo que, ou pouco mudavam, ou mudavam era nada.
Você tem coragem? Relaxa. Eu não tinha. Isso não era um desafio. Isso só era o tempo seguindo e eu existindo. Você tem paciência? Relaxa. Eu não tinha. Isso não era a obstinação de alguém que sabe muito bem o que quer. Era o total vazio inerte quase andante de quem só não podia “ser nada”.
Nessa de “ser nada”, tudo que passava pela minha frente eu queria aprender ou minimamente entender. É tipo “Quem Quer Ser um Milionário”. Toda novidade, todo acontecimento os olhos atentos retinham, guardavam e deixavam lá, marinando para a hora que a pergunta fosse feita. Sofreu no meio do caminho? Demais. Mas também não precisa ser assim sempre. Filme é filme, vida é vida (ou não, né Boyhood?).
Quando Don L imaginou usar as armas da favela “naipe Marighella”, será que ele sabia onde iria estar no seu tempo futuro (mais líquido que o meu, diga-se de passado)?
“Num vim pedir pra ninguém levantar a mão
Quando eu pedi pra alguém levantar a mão
A minha tinha uma arma
E mesmo assim naquela mão
Era só pra me levantar meu chapa
Agora não
É pra voar”
(a todo vapor, Don L)
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Ficar ficando
Na minha época de moço surgiu o termo “ficar”. Ficar era essa ideia de estar com uma pessoa, mas não estar ao mesmo tempo. Quero dizer. Era estar, mas não namorar. Por isso a ideia do ficar. Você nem gosta tanto para pegar o caminho do amar, nem desgosta tanto para pegar o caminho da irrelevância. Você fica. Fica ficando, como se dizia também.
Nem sei se esse termo ainda existe, mas acredito que sim. Talvez hoje é: “estamos de rolê” ou algo parecido, mas a ideia é a mesma. É não se apegar (se apegando!) é não namorar (namorando!), é não ser (estando!), por isso, ficando.
“Assim, não se pode aprender a amar, tal como não se pode aprender a morrer. E não se pode aprender a arte ilusória – inexistente, embora ardentemente desejada – de evitar suas garras e ficar fora de seu caminho.” (Amor Líquido, Zygmunt Bauman)
Captou? A verdade, tanto para mim mesmo enquanto vagava por outras possibilidades, quanto para o jovenzinho de 13, quanto para a mãe dele, é que eu “fiquei ficando”. Não dá para necessariamente ensinar a viver uma vida. Dá para ensinar a viver um estado que a liquidez permite assumir atualmente. Isto é, dá para ensinar a ser água em copo, dá para ensinar a ser água em cubas de gelo, mas não dá para ensinar a ser água esparramada. Desconfie de quem tenta.
Para a água esparramada só resta deixar ela correr e, o que sobrar dela, vai assumir uma forma. Que forma? Não sei. Só sei que não dá é para “evitar suas garras e ficar fora de seu caminho”.
A coisa que mais temo em quem se apega ao papo de coach é aceitar que existe um método. A vida plena é essencialmente baseada no amor que temos por algo (cinema, no meu caso! escrever também!). Logo, se não se ensina amor, ainda mais em tempos que antes de ser amor é só um “ficar ficando”, como se ensina a ser o que o amor precisará que você seja?
Antes de ser plena, a vida deve ser tipo tela em branco. Um pouco de tinta ali, uma planejada acolá, uma aceitação do aleatório que se misturou com a cor que nem sabíamos fazer antes e, ao final, um quadro pintado que, ora parece planejado pelo artista (ainda que ele diga o contrário), ora parece aleatório (mesmo que o artista teime em dizer o contrário).
“Pode ser amor num lampejo, amor à primeira vista; mas o tempo, longo ou curto, deve transcorrer entre a pergunta e a resposta, a proposta e sua aceitação”. Permita-me acrescentar, Seu Bauman, se não houver pergunta e sequer resposta por um bom tempo, ainda é amor, mas é amor de outro jeito. É amor no seu cantinho. Um dia desabrocha, seja na gente ou no mundo que espera nosso momento de aceitar a resposta vinda daquilo que amamos. Não tem faculdade para isso. Não tem consultoria!
O tempo deve seguir. Deve correr. Deve topar (uma, duas ou três vezes!). Há de se transcorrer a vida antes que a pergunta e a resposta venham. Quem antecipa isso vive numa cuba de gelo quadrado. Em tempos líquidos, cuba de gelo é prisão, não é vida.
Depois de tanta confusão (e outras por vir) tem sido um “vôo foda” para Don L. Sobre Amélie, os enigmas e pistas para Nino funcionaram. Para Jamal, saber tanto sem saber que sabia o fez dançar no final. Talvez para Mason também, que foi viver longe dos olhos dos seus para construir novos olhares a partir de si. Para mim? Certamente. Vivo do que amo. Amo o que vivo. A resposta foi “sim”.
“Agora
Já que uma vida é muito pouco
Pra fazer tudo que eu posso
E ser tudo que eu sou
Uma morte é muito pouco”
(a todo vapor, Don L)
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Ao jovem de 14
Responda quando perguntarem, mas antes, viva. Uma vida é muito pouco para fazer tudo que se pode. Mas nem tudo que se pode será feito. Nem precisa. Então uma vida basta. Se parecer sem objetivo, aceite a caixinha encontrada e crie enigmas. Mas é preciso saber a resposta antes de saber a pergunta. Não é difícil, confia. Bastam olhos atentos. Eles resolverão tudo.