Agora tudo é multiverso. Mas sempre foi assim, PH! De fato. Sempre foi assim e provavelmente sempre tinha alguém apontando que estava rolando mais cópias do que criação. Mesmo que copiar seja criar.

É que às vezes parece que a indústria cultural não larga o osso de uma coisa só ao mesmo tempo; ou seja, vira uma tendência e essa tendência vira a única regra. É aqui que o nome ‘indústria’ faz mais sentido ainda. Copiar para na linha de produção não haver erros e, no final, o cliente sair feliz com o objeto perfeito.

“A obra medíocre sempre se manteve à semelhança de outras pelo álibi da identidade. A indústria cultural finalmente absolutiza a imitação.” (Adorno & Horkheimer – 1947)

Se você copia o desenho de outra pessoa seu desenho não é muito original. É uma cópia, tudo na arte é cópia, mas se você nada adicionou, se você apenas foi lá e tal como xerox copiou, sinto dizer, é apenas uma cópia. É uma cópia se ancorando nas outras cópias, portanto, cópia das cópias. Perde-se tanto o fio das cópias, que gira o mundo e parece que não teve cópia, parece original.

Esse é o tal “álibi da identidade” que Adorno e Horkheimer apontam. Essa ideia de que a indústria cultural frequentemente usa a semelhança com obras já existentes como uma desculpa para produzir mais do mesmo e, assim, não errar em termos financeiros.

A indústria precisa que alguém quebre a barreira e, depois de quebrada, passa boiada. “A indústria cultural finalmente absolutiza a imitação”, pois as mídias de cultura (como o cinema, a música, TV, streaming, etc) incentivam essa cópia em vez de procurarem o novo e o original, uma vez que aquilo se popularizou. “Absolutizam a imitação” porque fazem da imitação a regra, em vez da exceção.

Esse é o labirinto da criação. Cria-se em cima de tantas cópias que, ao final, tudo é cópia. E, quando tudo é algo, ele passa a não ser mais esse algo.

O processo de criação é complexo e muitas vezes confuso, como um labirinto. Por isso que muitas vezes as novas criações são baseadas no que já existe, o que resulta nessa sensação de que tudo é apenas o que outra coisa já foi. A originalidade é difícil, pois, tanto muitas ideias já foram exploradas, como tantas já deram certo ou errado (dois conceitos igualmente complexos dentro desse contexto). Sem tempo, afinal, não há mais tempo para errar ou esperar maturar, copia-se mais rapidamente.

Por outro lado, se tudo é intrinsecamente copiado de algo que já copiou, é bom dizer, o conceito de “cópia” perde seu significado. Se tudo é cópia, então a ideia de “cópia” se torna o padrão. Perdem, criador e criatura, nesse caso. Imagine uma sala de aula onde decide-se que todos farão a prova igual. Quem copiou de quem? Quem de fato criou? Perdeu-se o autor. Sumiu no mar dos iguais. Mas agrada o mercado, nesse caso, a nota. Ou dez para todos, ou zero.

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Você também faz isso

O que é o feed do Insta senão um feed infinito de imitações? Alguém cria o hype, a trend, a norma, e daí todos passam a seguir fielmente essa norma a fim de se destacar em meio ao caos. Seja a dancinha, seja a trend do que os casais respondem, seja a moda que vier a acontecer. Tudo trend-se a virar trend.

“Para todos alguma coisa é prevista, a fim de que nenhum possa escapar; as diferenças vêm cunhadas e difundidas artificialmente.” (Adorno e Horkheimer)

As redes sociais viram palco para uma eterna repetição de tendências, onde a originalidade é suplantada pela aceitação ao hype do momento. Somos constantemente incentivados a participar de desafios virais (como se vírus fosse bom!), imitar a moda ou seguir tópicos de discussão do momento (de representatividade à empreendedorismo, tudo no mesmo balaio). Cria-se, portanto, um ecossistema de imitações intermináveis.

Havia um tempo onde prego que se destacava era martelado. Hoje, cada vez mais pregos querem ser martelados. Depois reclamam da dor de cabeça. A busca incessante para se destacar nesse caos resulta em mais da mesma coisa. É como se, porque todo mundo surgiu igual, do mesmo lugar, do mesmo jeito, vai voltar para lá do mesmo jeito também: sendo execrado pela rede que o projetou.

Quando o hype vigente passar, pois há sempre um novo hype, novos surgirão e velhos ressurgirão copiando os novos, reforçando a ideia de que as diferenças são artificialmente cunhadas e difundidas, criando um ciclo enorme de homogeneidade disfarçado de diversidade.

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Solanin e Anitta

Um mangá que adoro, Solanin“, de Inio Asano, segue a vida de um grupo de jovens adultos lutando com questões de propósito, identidade, sonhos, mas principalmente a respeito do choque entre o que é uma aspiração pessoal e o que é uma expectativa da sociedade perante o jovem (adulto). Fala-se, mesmo sem falar diretamente, sobre essa busca por autenticidade em um mundo que parece insistir em conformidade e rotina. Em mais do mesmo.

Em um dado momento do mangá a banda criada pelos personagens dessa história (sem spoilers, porque sei que você vai ler) é convidada a tocar para alguns empresários que estão fartos de bandas cover. Em apenas um dia eles precisarão montar um repertório próprio, o que é um sonho gigante de várias bandas que precisam esconder uma ou duas músicas atrás da música dos outros. Porém, ao mesmo tempo, se mostrar, isto é, não copiar, é extremamente desafiador, porque sem escudo, de dorso aberto, o cavaleiro pode levar uma espada mortal.

Você não presta! – corre-se esse risco.

Os personagens de “Solanin” querem seguir seus próprios caminhos e aspirações artísticas, mas se veem presos também a empregos monótonos e vidas sem inspiração. É como se fosse o tal cover, só que do ponto de vista de vida e não de repertório. Presos a escritórios e metas cujo objetivo é só aumentar a próxima meta são vidas copiadas de outras vidas que ditaram aquilo como certo. Há uma pressão latente de se conformar com as expectativas da sociedade tal como viver uma vida aderindo às tendências e ao hype nas redes sociais.

A vida “normal” e “esperada”, sendo assim, são a cópia que os personagens de “Solanin” são forçados a levar. Essa luta para se libertar desse molde e buscar uma vida autêntica é uma rejeição do padrão. É a construção de um novo palco, ou a tentativa de construí-lo, em vez de tentar subir em um palco que já está extremamente cheio. Porém… e aqui há um grande porém…

O repertório dessa banda dentro de “Solanin” terá que ser aceito, pois as diferenças são difundidas artificialmente, a favor da tal indústria e muito pouco do artista. Os personagens do mangá estão tentando encontrar suas próprias diferenças e identidades em um mundo que valoriza a conformidade e, por isso, até mesmo no repertório próprio buscam imitar de um jeito que não pareça copiar.

E a Anitta, PH?

“Alguém mais assistiu Black Mirror e não entendeu nada do pq a série não é mais o que era? Parece até outra série. Não é mais sobre tecnologia, agora é “thriller” aleatório, os diálogos mal feitos, as histórias bobas sem propósito… que doideira” (Anitta, 2023)

Uma cantora (astista!), que já foi alvo de reclamações porque mudou (se adaptou, que seja), não percebeu que Charlie Brooker, o criador (astista!) de Black Mirror, também poderia mudar. Que poderia não ficar preso para sempre nos mesmos ‘próprios’ paradigmas.

“Foi interessante redefinir as coisas dessa maneira. Foi um limpador de paladar e significa que você está abordando todos os outros episódios de uma perspectiva ligeiramente diferente.” (Charlie Brooker, sobre a 6a temporada de Black Mirror)

Tal como a galera de “Solanin”, se ele não mudasse um pouco, iria sentir a vida passar de passagem, apenas copiando a si mesmo ou copiando alguém que nem sabe quem. Assim como Anitta mudou e muda, seja a favor de uma carreira internacional, seja a favor do que ela deseja, Charlizito também.

Em vez de analisar bem o próprio espelho, esqueceu que o espelho escuro do outro é igual ou muito parecido com o seu. Se esse reflexo não usou de um hype para melhor passar, palmas, pois provou que criar incomoda e, por isso, muitos outros preferem apenas imitar. É mais fácil, controla os desavisados, agrada o mercado e, sobretudo, não assusta. Mas também morre igual a todos os outros que tanto apenas copiaram.

No fim, parece que toda história acaba igual. Para que serve mudar, então?