Estamos vivendo ou apenas revivendo?

Me pergunto isso depois de outro dia estar pensando sobre a finitude das possibilidades mesmo que não pareçam finitas. Não é que a vida seja finita, mas é que, talvez cansados de saber como viver, parece que nos entregamos a algum modelo da mesma forma que desistimos de procurar uma comida no aplicativo-de-comida e simplesmente escolhemos exatamente a última que pedimos.

Nem adianta tentar fugir demais disso. Quando fugimos de algumas escolhas pré-definidas (escolhas já feitas, nesse caso), ela se tornará, na próxima escolha, uma repetição, portanto, uma nova não-escolha.

Eu mesmo. Eu sempre estou refazendo o último pedido. Sempre estou ‘pedindo’ no automático. Mesmo que o último pedido tenha sido uma novidade, no próximo pedido ele para de ser. De nada vale mudar tanto se quando acabam todas as opções tudo será repetição. Por isso, repito restaurantes, às vezes até a mesa. Ignoro quase em tom de repulsa o coitado do cardápio (sobretudo o digital): “O de sempre, chefe!”.

Tanta coisa para escolher, tanta coisa que fica sem escolha e tanta escolha que depois de feita não é mais escolha, é repetido. Melhor repetir então, não traio aquela amizade degustativa que fiz noutro dia.

A bem da verdade é que recebemos tantos modelos prontos que muitas vezes á mais fácil (e eu entendo irmos pelo mais fácil) simplesmente escolher um desses e depois repeti-lo constantemente. Em vez de riscar do zero, já começamos de um esboço prontíssimo.

“Apesar de termos feito tudo que fizemos. Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais!” (Belchior)

Em vez de vivermos nossa própria vida, assistimos a uma versão dela sendo apresentada a nós através do tanto que o cardápio da vida já está escrito. Pedir algo diferente é para os fortes, pois é matar mais uma possibilidade de escolha. Estamos presos ou nos prendemos diante da suposta liberdade de escolha que temos. Afinal, ainda que seja escolha, há limites no cardápio. Pode ter 50 sabores, mas ainda são 50 e não infinitos sabores. 50 sabores bastam? Se você pensar que só se vive uma vez, supostamente um sabor já bastaria.

Se você for 50 vezes ao local e a cada vez escolher um sabor, quantos sobram? Acertou. Zero sabores. Sobra repetição.

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Vivendo como Doug

Estamos alienados. Essa alienação não é apenas uma questão de sentir-se desconectado ou insatisfeito. Falo de identidade pessoal e da sociedade. Em vez de viver ativamente a vida e participar diretamente da criação dela, parecemos muitas vezes espectadores passivos. Consumindo representações e versões que nos são apresentadas o tempo inteiro. Seja na TV, seja pela moda, seja pelo feed sem fim. A cultura do consumo nos aprisiona até com a roupa que devemos vestir.

Há mais ou menos dois anos eu fui a uma loja e comprei 8 camisetas “cor de chumbo”. Uma para cada dia da semana e uma a mais para reiniciar a rotação com sobras ou em caso de problemas técnicos. Elas seriam minhas únicas camisetas. Eram confortáveis, eu não precisaria escolher, era só pegar, e viveria tal como Doug Funnie (a depender da sua idade, eis a imagem).

Faria também como Doug: caso precisasse me tornar mais ‘apresentável’, colocaria uma peça de roupa diferente, um blazer, por exemplo. Automaticamente sairia do “moço” que perguntam para “onde vai” ao tentar entrar em um prédio, para o homem que abrem os portões sem nem perguntar nada (acredite, já passei por isso). No caso de Doug seria só a cueca em cima da calça que o transformaria em Capitão Codorna (imagem de novo por causa da idade, já sei), um super-herói, como me sinto quando boto o blazer e as portas se abrem magicamente.

Pouco mais de um ano depois fui renovar minhas 8 camisetas. Todas se desgastaram igual e foi fascinante a experiência. Saí com o orçamento contado, feliz. Estava pronto para mais um ano e pouco de camiseta cor-de-chumbo. Cheguei na mesma loja, na mesma seção e… cadê? Agora era uma camiseta polo, meio azul, meio chumbo, nem lá nem cá. Não era a camiseta que eu queria. Não era a cor que eu queria. Procurei muito e nada. Achei similares, mas não Aquela! Levei a tal polo não-mais-chumbo (novo estilo, me convenci).

A questão é: estilo porque eu quis ou estilo porque quiseram por mim?

Hoje nem faço mais esse lance das camisetas iguais. As camisetas polo não duraram um semestre em qualidade estética aceitável. Péssima experiência. Mais do que isso! Se eu não tenho escolha desde a origem, então qualquer camiseta que estiver no meu armário deve ser aquela que me caiba.

Agora tenho estampas diferentes, mas pego qualquer uma, geralmente a debaixo para que não se sinta muito abandonada. Agora são 12 camisetas estampadas. Pretas (não é possível que parem com a cor preta!). Agora é mais do que oito, pois se não iria parecer que todo sábado uso apenas a mesma estampa (e ainda parece de vez em quando). Desculpa, Doug, eu cedi ao culto da imagem. Ah! 12+1, pra ser preciso. Ficou uma camiseta cor-de-chumbo que uso para gravar os vídeos. Gravo e devolvo para o repouso dela.

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Simulação até demais

Tem um moço, Jean para os íntimos e Baudrillard para os não íntimos, que em “Simulacros e Simulação” nos coloca a refletir sobre essa alienação das escolhas. Jean sugere que na sociedade contemporânea a realidade foi substituída por uma simulação na qual todos os signos e as imagens não apenas representam a realidade, mas se tornam a realidade em si. Ele chama isso de “hiper-realidade”. Eu chamo de: “queria minha camiseta cor-de-chumbo mas mudaram para a camiseta não-mais-chumbo”. Você escolhe como chamar.

Nessa realidade (hiper!) onde não há mais a escolha da “camiseta cor-de-chumbo”, mas a forçada aceitação da “camiseta não-mais-chumbo”, a distinção entre a realidade e o desejo torna-se turva. Isto é, as representações que consumimos não apenas nos alienam de nossas próprias experiências, mas também alteram nossa percepção da vida (eu tive um novo estilo!). Achamos que estamos vivendo uma vida autêntica quando, na verdade, é só uma vida baseada.

A realidade torna-se algo que é constantemente mediado e filtrado através de uma variedade de simulações que não nos aliena apenas de nossas próprias experiências, como também de uma compreensão autêntica e direta do que é real. Do que é escolhível. Do que você quer versus o que você tem que querer. Por isso defendo que, em vez de interagir com o mundo como ele é, interagimos com o que ele quer ser para nós.

“A alienação na ‘sociedade do espetáculo’ não é apenas uma questão de ser um espectador passivo, mas também de viver em uma realidade que é, ela mesma, passiva.” (Jason Gorard*, em Escolhas ao Acaso*)

A vida também é passiva, assim interpreto Jason, porque ela é usada por alguns. A vida não tem vida. Ela só é e pronto. Alguém que vai lá e mexe nela, logo, ela é em partes o que fazem dela. Por isso, passiva. A partir disso você coloca o que quiser na conta: mercado, capital ou política. Algum desses se utiliza da passividade da vida. Portanto, somos passivos da passividade a partir da atividade de alguns que definiram se eu vou levar a camiseta “cor-de-chumbo” ou a “não-mais-chumbo”.

É por isso que algumas vezes, quando muito presos a essas não-escolhas, sentimos como se estivéssemos assistindo a vida passar, em vez de realmente viver.

O livro “O Crepúsculo do Mundo”, escrito pelo também cineasta Werner Herzog, acompanha a história do tenente Onoda. Em 1944, o tenente recebeu ordens para manter a ilha de Lubang, nas Filipinas, sempre ocupada até o retorno do exército imperial japonês. No ano seguinte, a guerra se concluiu, o Japão perdeu e os americanos tomaram a ilha. Onoda, porém, permaneceu na sua missão e resistiu por quase trinta anos se recusando a acreditar que o conflito havia terminado. É livro, mas é verdade também. Herzog foi entrevistar Onoda e escreveu o livro (aí sim, em partes fictícias) em cima dessas memórias e desse relato.

Momento que Onoda descobre que talvez a guerra já tenha acabado há algum tempo:

Pela primeira vez, vê-se um indício de sorriso no rosto de Onoda. Ele assente. Continue, conte mais. Incentivado, Suzuki prossegue. “A guerra acabou vinte e nove anos atrás.”

Incompreensão pura e imóvel no rosto de Onoda.

“Não pode ser.”
“O Japão capitulou em agosto de 1945.”
“A guerra não acabou. Faz uns dois dias, vi um porta-aviões norte-americano acompanhado de um destróier e de uma fragata.”
“Indo para leste?”, Suzuki supõe.
“Não tente me enganar. O que eu vi, eu vi.

Onoda não viu o que viu. O mundo havia mudado, descobrimos a seguir que a ilha de Lubang não era mais interesse de nenhuma missão inimiga e Onoda havia passado todo aquele tempo sobrevivendo na mata e lutando à toa. Para esse homem a realidade era diferente. Ele via o mundo através da lente de sua missão, pois foi a camiseta que venderam para ele. Todos os sinais do mundo exterior, como o porta-aviões norte-americano e os bombardeiros que via, eram interpretados dentro deste contexto, mas estavam ali por outro motivo: havia uma base perto, fruto da agora aliança entre Filipinas e Estados Unidos.

“Não existe plano nenhum, porque a guerra acabou.”

Por um momento, Onoda luta consigo mesmo. Depois, levanta-se devagar, dá um passo na direção de Suzuki e aperta-lhe a boca do fuzil entre as sobrancelhas.

“Diga-me a verdade. A hora chegou.”

“Tenente, não tenho medo da morte. Só acharia deprimente morrer quando estou falando a verdade.”

Somos Onoda.

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*Desculpa! Inventei nome de autor e obra, pois assim vocês levariam mais a sério do que se fosse apenas escrito por mim.