A Niuslerer do PH é um texto semanal que pode ter indicações, reflexões ou só o que vier na hora que compreende o decidir escrever e o escrever.

Eu não sei absolutamente nada de violão. Não toco. Meu ouvido para música, do ponto de vista de melodia mesmo, é tenebroso. Inclusive tinha (ou tenho) ranço daquelas rodas de violão que se juntavam pelo colégio e tocavam todas as músicas como se fossem Legião Urbana (talvez até fosse, mas eu não tinha repertório, pois estava envolto demais no metaaaaaal).

Dito isto, Yamandu Costa!

Outro dia (já tem um tempo) dei um play em um documentário que me apareceu absolutamente do nada. Quer dizer, talvez porque outro dia antes desse outro dia que falei eu havia visto (ouvido) outro vídeo de um japonês tocando guitarra, coisa que faço para me acompanhar no meu trabalho geralmente solitário.

Dei o play nesse vídeo/documentário chamado Herança Russa do canal do Yamandu. Evidente que minha burrice musical não me permitiria ficar mais de cinco minutos vendo aquele ás do violão falar sobre a tal das sete cordas enquanto viajava pela Rússia na busca da origem desse violão e das conexões com o Brasil. Engano dos bons. Fiquei, assisti, e quase perco a hora de acordar no dia seguinte para mais uma jornada (quase) solitária.

Já conhecia Yamandu de um Festival de Jazz que acontece todo ano durante o carnaval em uma cidade serrana próxima a Fortaleza. Chama-se Guaramiranga. Cidade linda! Por sinal, parte dos meus ganhos são destinados a uma poupança (existe isso ainda?) para que um dia eu compre um pedaço de terra por lá e fuja, literalmente nesse caso, para as montanhas.

O fato de já conhecer Yamandu talvez tenha me segurado nesse documentário. Uso o ‘talvez’, pois refletindo depois, principalmente de já tê-lo visto mais algumas vezes, fico com dúvidas se foi mesmo a familiaridade com o artista. Concluo, por enquanto. Não foi. Foi a sensação de ver um mestre trabalhar.

Sabe a sensação de ver um mestre em alguma coisa simplesmente fazendo seu ofício? É isso que sinto quando acesso o processo criativo, ou as obsessões, dessas pessoas. Pouco importa se eu conheço de música, de violão, menos ainda de sete cordas ou mais (ou menos). Quando se vê um mestre agindo, se sabe que aquela pessoa é diferente. Não precisa ser treinado, pois o exotérico (sim, é com ‘x’, confia) deixa bem claro.

Ver Yamandu exortando sua arte no mais puro estado de obsessão da origem dessa arte me prendeu por muito tempo na ideia de que o fazer é muito mais interessante do que o feito.

***

O tatuador e o artesão

O trabalho do artesão vale demais. Demais e mais caro! Ainda mais hoje que a personalização, isto é, o ato de colocar personalidade em algo, está cada vez mais raro. Penso, e até de maneira romântica, que o trabalho manual em si é o que vende nesse sentido, mas também não é. É o pensar-fazer. É o ato de encaixar em seu dia, em sua vida, em sua mente, a capacidade de criar algo que antes não havia sido criado.

“Nenhuma tatuagem sairá igual outra, ainda que o desenho seja o mesmo!” Disse meu tatuador e amigo, o Rafael Gomes, quando reclamava de uma dupla de amigos que por sua vez reclamaram que a ‘resiliência’ de uma, não foi perfeitamente igual à ‘resiliência’ da outra. Evidente que não! Ora, estamos falando do ato de fazer, e não do replicar.

Richard Sennett, um sociólogo que tenho lido bastante (para as resenhas de “Ruptura”) escreveu “O Artífice” (que não serve para “Ruptura”, os que servem são outros dois: “A Corrosão do Caráter” e “O Declínio do Homem Público”). Esse livro é um livro de leitura densa, complicada às vezes, extensa também, mas, depois que se pega o ritmo, é simplesmente fabulosa. Ele fala sobre o trabalho do artesão e como o capitalismo deturpou, detonou e sufocou esses ofícios.

Sennett vê o trabalho do artesão não apenas como o produto final (igual eu!), mas como um processo de aprendizado contínuo que se desdobra na busca pela perfeição. Ou da não perfeição também. Da fluidez da coisa. Do pensar-fazer. Vai além de pegar um toco de uma árvore, por exemplo, e talhar dando forma. Tem toda uma história do artesão, da sua origem, das suas crenças e descrenças, do método, do tempo, do objetivo… são tantas coisas. É, dentre outras coisas, e Sennett concorda, uma outra forma de significar.

“Eu penso que, quanto mais estudamos a Arte, menos a Natureza nos preocupa. A Arte só nos ensina d’Ela a sua falta de conclusões, as suas curiosas crueldades, a sua extraordinária monotonia, o seu caráter absolutamente indefinido.” (A Decadência da Mentira, Oscar Wilde)

Ver Yamandu tentando se encaixar na artesanalidade de outros violonistas (que não são brasileiros) representa exatamente essa ideia e é uma das coisas que me deixam apaixonado por ver um filme sobre algo que eu nem entendo direito, nem pratico, e nem quero. Ele está se esculpindo noutros e a partir d’outros. Nesse caso, o valor não vem necessariamente do produto acabado (nunca!), mas do ato da criação em si – no fazer o feito.

Preciso que algo seja bem entendido e que não simplifique a coisa, porque é para ser complexa mesmo. O fascínio não é pelo making of. Não é isso! É por perceber o pensar durante o executar. É o se encaixar dos erros. É o resolver. Não é expositivo, como Yamandu não foi expositivo sobre como ele toca ou deixa de tocar violão. É como se pensa a coisa. É metafísico. Não é práxis.

É a intenção de saber sobre o desejo de “fazer bem pelo bem” (Sennett), pois ainda que eu não compreenda de acordes, a beleza da performance natural é muito mais interessante do que a música em si. A performance provinda de uma visita à uma casa de uma mestra do violão de sete cordas russo, que inclusive rapidamente reconhece Yamandu como mestre também, não está no som criado, está na circunstância em que o som é criado. No momento. Na fruição.

***

O toco era Ikigai

Ikigai significa “razão de ser” em japonês. É a ideia de interseção de alguns elementos fundamentais para o fazer valer: Ikigai = o que se ama + o que o contexto precisa + o que você é bom + o que pode ser pago.

Quando alguém está no estado de ikigai me soa como Yamandu nesse doc: ele claramente ama o violão + nós precisamos dessa arte para transcender (ou trabalhar acompanhado, que seja) + ele é mestre naquilo + ele foi pago (e deve ser mais pago ainda, por favor).

A partir dessa maestria existe a sensação mais pura de propósito e alegria de uma maneira tão tangível, mas tão tangível, que só resta admirar. Propósito não é coisa, é etéreo, é mágico, é fluxo. Portanto, não apenas se ensina. Se vive. Se acha…

Tem um filme do qual gosto muito chamado “El Camino de San Diego” (de 2006, vi em algum festival que não me recordo – cine ceará? talvez). Nele, o diretor Carlos Sorin nos conta essa história de um cortador de árvores que, numa das cortadas, achou um dos tocos parecido com Maradona. O cortador bota na cabeça a ideia de levar aquele achado para Diego, já que o astro do futebol estava morre-não-morre no hospital.

O jovem cortador não fez aquele toco. Não era um artesão. Ele apenas foi perspicaz. Ele enxergou, ele achou, e a partir disso iria atrás de dar cabo, de dar significado (propósito!) para o seu achado. Caso reproduzisse Diego noutro toco, perderia aquele propósito em si. Por isso, dentre vários outros motivos, valeria a pena levar especificamente aquele toco como tal para Maradona.

Assim como eu vendo Yamandu e as sete cordas, o jovem havia achado significado.

A Natureza possui boas intenções, certamente, mas não pode praticá-las. Quando contemplo uma paisagem, não posso descobrir todos os seus defeitos. Afinal, há uma vantagem em possuir-se a Natureza tão imperfeita, pois sem isto não teríamos arte de todo. A Arte é o nosso nobre protesto e o nosso bravo esforço para acomodar a Natureza!… (A Decadência da Mentira, Oscar Wilde)

Às vezes estamos tão imersos em uma atividade que perdemos a noção do tempo e do espaço e atingimos um estado de satisfação plena. De altivez, eu diria. É o que sinto quando escrevo e, por isso, ao chegar nesse final de texto a coisa muda em relação ao que eu comecei (eu amo essa sensação). Eu não me importo com o número de cordas do violão. Dane-se!

Yamandu, no fluxo dele, no ikigai dele, na razão de ser dele, me colocou perfeitamente na minha razão de ser, no meu ikigai. Esse é o ponto. Viver à sombra do que os outros fazem e, portanto, tergiversar, viajar, me perder, me encontrar. Significar! Achar o toco com a cara do Maradona. Eis meu fluir.

Não foi Yamandu (desculpe, seu doc continua lindo), nem violão, nem russo, nem número de cordas coisa nenhuma. Foi meu ikigai! Eu amo o que faço (ou finjo bem para mim mesmo), pois acordo todo dia ávido para escrever mais algumas centenas de palavras que talvez eu morra e ninguém nunca leia. Acredito que precisamos de pessoas observando e refletindo arte, sociedade e cultura o tempo inteiro, mesmo quando parece não haver luz para isso. Tem dias como hoje que acredito que sou aceitável no que faço (quero biscoito no meu Instagram urgentemente, faz favor). E, muito felizmente!, minhas contas são pagas hoje a partir disso que faço (a casinha na serra um dia virá e ninguém me segurará).

Note o ciclo. Eu preciso do artesão. Preciso porque não sou. Preciso da arte. Preciso porque não a faço. Preciso das várias razões de ser de quem admiro e até de quem nem admiro tanto assim. Preciso pois, sem elas, meu ikigai, coitado, seria muito menos da metade do que é hoje. Seria nada ou muito pouco.

Por precisar disso tudo eu pago o quanto conseguir para o artesão. Nem falo de dinheiro, entenda. Pago, se não tiver o capital, com atenção. Damos atenção a tanta coisa que não merece. Por isso, sem dó, sem cara feia e sem barganha, eu pago. E ainda disfarço que não estou maravilhado com a tal das sete cordas. Habilidade ou se aprende ou se admira. E admirar é acordar dentro do sonho e continuar dormindo. É não estar estando. É voar de pé no chão. Vale muito… por isso pago.

***

Reflita 5 minutos e só depois leia o próximo tópico. Não ouse!
Ok, pode ir…

Vamos lá… atualizações do livro “Roteiro Falado: A Casa do Dragão”

Meu editor não me permite dizer que dia 16 de junho é para a gráfica estar arremessando as caixas de livros na Reboot e, de lá, para a casa de vocês. Ele diz que, caso eu fale a data, gerará compromisso público. Portanto, se você ler o código que vou dizer agora – bah, carneiro, ovelha! – você se comprometeu a não aceitar esse compromisso, mas apenas um carinho para a ansiedade.

Falando sério: demorou mais do que eu previa! Mas ainda está no prazo acordado na campanha. Peço desculpas. A mim mesmo, no caso, porque, como eu disse, tá no prazo. Peço desculpas, pois eu queria fazer surpresa. Não vai ser dessa vez. Não com esse livro. Em breve, fruto de muito aprendizado, será lançado o livro sobre The Last of Us e, depois, sobre Andor e estudo um de Black Mirror, mas meu editor não sabe, não contem a ele. Aí, ao final do ano, uma surpresa (que é um livro também, mas diferente, confia).

Obrigado pela paciência. Vai valer a pena.

Até a próxima Nius.