A Niuslerer do PH é um texto semanal que pode ter indicações, reflexões ou só o que vier na hora que compreende o decidir escrever e o escrever.

Outro dia, fui a uma concessionária de veículos. Lá, depois de ser abordado para uma tentativa de venda de um carro (usado, que eles chamam de seminovo, rs), fui conduzido a uma pequena sala e sentei-me à mesa da vendedora para começar a negociar. Ao lado, estavam todas as outras mesas dos outros vendedores. Havia uma parede na minha frente e um vão de vendedores. Cinco mesas, no máximo. A negociação foi tão longa que tive tempo de observar tudo que havia por ali e perceber os arquétipos de cada ator e atriz presentes naquele espetáculo.

Em um dado momento de intrusividade, e para tentar esvaziar um pouco o silêncio e a indiferença do local onde eu já estava há quase duas horas, perguntei para a vendedora da mesa à direita: “Você é a prefeita aqui, né?”. Ela respondeu: “Eu mando lá em nada!”, seguido de risos. O vendedor da mesa à esquerda retrucou: “É ela sim. A gente não pode nem pegar mais de um copo por dia que ela briga.”. Achando que não seria minha vítima, virei para o da esquerda também: “E você é o que mais bate as metas, né?”. A vendedora da direita respondeu: “É, e fica todo se achando”. O ‘lá da ponta’ soltou uma gaitada! (Que aqui no Ceará não se configura como toque de gaita, é um riso debochado e arregaçado)

Não precisava ser nenhum gênio. Atrás da mesa da direita havia um cartaz impresso em folha A4 com o passo-a-passo do que se deveria fazer todos os dias; ligar os carros, atualizar os preços, manobrar o carro de exposição, etc. Ao lado do bebedouro, havia um cartaz com o mesmíssimo padrão, uma borda preta ao redor da palavra atenção gritando em caixa alta e negrito: “Favor pegar apenas um copo e colocar seu nome. Obrigado!”. Na mesa da esquerda havia alguns troféus. Nenhuma outra mesa tinha os tais. Conversando, descobri que não era que os demais não tivessem sido “vendedores de algum mês”, mas segundo o ‘lá da ponta’, só o da esquerda que gostava de mostrar:

– É, macho, ele é exibido que só ele! – falou em deboche o ‘lá da ponta’.
– Deixa de conversa, doido. Eu vou botar isso onde? – respondeu o da direita tentando desmerecer o orgulho.
– Leva para casa, macho! – intercedeu a vendedora que negociava comigo.
– Eu num sei nem onde eu botei os meus… – cochichou o ‘lá da ponta’.

Fiquei em silêncio por alguns minutos observando três vendedores discutirem o significado do troféu, e um vendedor tentando justificar que aquilo era mérito dele. A discussão só parou quando o gerente fazendo o papel de que não dava mais para baixar o preço, enquanto eu fazia o meu de que não ia mais comprar então.

Mesmo interrompido, a partir daquele momento o silêncio estaria perfeitamente estremecido. Conversamos do absurdo que são esses carros de plástico até o jogo do Fortaleza que viria. Silêncio, na minha presença ali, nunca mais. Voltei tempos depois e ele também não existiu. Olha que eu gosto de silêncio, mas já tinha observado e criado uma narrativa mental, precisava agora de mais imagens.

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Imagens, imagens, vida nada à parte

Somos arquétipos, e todo escritório, absolutamente todo escritório, gira em torno das mesmas figuras. Parece que encaixam. Mesmo que não se contrate pensando nisso, parece que o espetáculo leva alguns a serem atores e atrizes em papéis muito específicos e já definidos: o preguiçoso, o ávido, o prefeito (que manda e resolve tudo), o vencedor, o que só quer ir embora às 18h, o atrasado, o gênio, o que chega cedo, mas nem é tão bom quanto o atrasado e assim segue.

Tente encaixar as pessoas em arquétipos em um local de trabalho, e você conseguirá com extrema facilidade. É um teatro. É um espetáculo. Não só o escritório, mas todas as nossas interações sociais são medidas por espetáculos. Por imagens.

“Quando o mundo real se transforma em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico” (Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo)

Em outras palavras, Debord diz que nossa experiência de vida é mediada por imagens, ou seja, representações. Imagine várias caixinhas, e nelas, uma foto que indica que tipo de imagem deve entrar ali, que tipo de pessoa deve estar ali. A origem da caixinha não é tanto objeto de nossa discussão, mas todo escritório tem essas caixinhas, por menor que seja o escritório.

A pessoa que representa um papel nesse ambiente não necessariamente atua do mesmo jeito em outro ambiente, em outra peça, afinal, atores mudam de papel o tempo todo (inclusive Keanu Reeves). Com relação a isso, Debord nos diz que não interagimos diretamente com o mundo, mas sim com as imagens dele, ou seja, com o que temos para ser naquele mundo.

As representações não apenas substituem a realidade, mas também se tornam mais importantes para nós do que a própria realidade. Começamos a agir e a pensar com base nessas imagens, ao invés da realidade em si. É como se estivéssemos hipnotizados por elas, pois somos levados a viver arquétipos quase que naturalmente, como quem precisa preencher vagas deixadas em um grupo, em um ambiente, em um espetáculo. Em um office.

Não dá para fazer “Hamlet” sem todos os personagens necessários. Até dá, mas fica capenga. Mesmo que todo elenco seja masculino, ou apenas feminino, por exemplo, a atuação não impede a caracterização. Assim como no escritório, talvez a pessoa mais desorganizada em casa consiga imprimir um cartaz para tentar salvar o meio ambiente a fim de se adequar àquele show. Ser o prefeito pelo menos daquele local.

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Ruptura, mas nem tanto

“Deixe as coisas do trabalho na sua casa!”

Estive nesse lugar por muito tempo. Como fazer isso, eu pensava. O ator atua justamente a partir de suas dores, vivências, sentimentos e origem. Não é mesmo? Sim e não. É o ator de Schrödinger nesse caso, rs. Não é tão diferente de “The Office” e menos diferente ainda de “Ruptura”. Tudo já está pronto e a intenção é fingir que não é você, mas sim a sua melhor versão – como se a sua melhor versão não fosse você.

Ruptura” é uma série do Apple TV+, chamada “Severance” em inglês. Nela, o trabalhador passa por um processo pelo qual, quando entra na empresa, deixa sua personalidade de vida para trás e assume outra personalidade, passa a ser o sujeito-trabalho, em vez do sujeito-vida.

Em “Ruptura” temos um escritório pequeno. Quatro pessoas. No começo da série, descobrimos que um funcionário saiu e agora o protagonista, Mark, será o gestor do local. No princípio ele se enrola todo. Está perturbado com a saída do amigo e com as novas funções. A entrevista que faz só não é um desastre, porque tudo parece funcionar estranhamente para dar certo. Enquanto busca se ajustar na função, nascem os pitaqueiros que tentam ajudar ou atrapalhar. Perceba, eles não são maus. Não mesmo! Apenas são levados a competir e, nessa competição, assim como o pouco que conheço de “Naruto”, cada um tem uma característica muito específica.

Em “Ruptura”, por exemplo, existe a figura do “grande produtivo”, que questiona um pouco a nova liderança, mas segue em busca de ganhar seus louros; por mais irônico que pareça, troféus para colocar na mesa. Existe “o experiente”, que se preocupa se a empresa está gastando muito ou pouco, que cuida do local e dos bons costumes por ali – é o prefeito. Ele mais ajuda o novo líder do que atrapalha, nesse caso. Porém, é claro, adoraria liderar. Existe “a novata”, no caso rebelde também, que se torna uma funcionária muito sagaz, ameaçando o posto do outro colega e trazendo nova dinâmica para o espetáculo.

No “Corrosão do Caráter“, Richard Sennett explora o impacto das mudanças no mundo do trabalho, mas sobretudo na identidade e no caráter dos trabalhadores. Ele elabora o termo “capitalismo flexível”, onde a mudança e a obsolescência constantes são valorizadas, mas nesse caso do próprio intelecto e das ações do humano (o trabalhador), o que resulta nessa desintegração de narrativas sobre a vida do indivíduo. Argumenta-se que isso gera insegurança e incerteza, ou a tal síndrome do impostor, pois o sujeito-trabalho leva para o sujeito-vida a percepção que não têm controle sobre suas próprias vidas e nunca estão prontas para o novo.

Assim como em parte de “Ruptura”, a ideia de competição e a caracterização de cada funcionário estão relacionadas à essa argumentação de Sennett sobre a degradação do trabalho em equipe no mundo corporativo moderno, onde colaboração é substituída por competição, por meta, por uma individualidade ainda que se busque a tal “força do time”. E, em uma competição, todos os atletas precisam urgentemente viver um papel. É preciso vestir o uniforme!

Mark, o líder lá de “Ruptura”, tem inseguranças, leva coisas da vida para o trabalho mesmo que haja a tal ruptura, mas consegue desempenhar a função, pois, vazios, todos ali foram aos poucos assumindo um papel que já parecia bem definido antes deles sequer entrarem naquela sala. A peça, o teatro, o espetáculo já estava escrito. Assim, bastava viver os personagens e deixar-se levar. E deixavam. Na vida, do pouco que tivemos delas, viviam outras personalidades, outras abordagens e outros assuntos; insegurança, melancolia, saudades, dores, traumas, apreensões e por aí vai.

Sempre me espanto como em todos os cargos que passei, em todas as empresas para as quais trabalhei, eu tinha que buscar o tal “fit cultural”. Não era para a empresa usar todas as minhas vivências, experiências e não só o meu corpo físico e intelectual para ter um “encaixe cultural”? Não. Porque tratava-se de tempo. O tempo da peça que precisava, por sua vez, do tempo do ator. O espetáculo já estava montado antes de você aparecer, repito. Tentar improvisar seria falhar miseravelmente. O diretor cobraria (ele também estava desempenhando um papel). Era subir ao palco e fazer o seu “Hamlet”. Sem mais, nem menos. Se possível, cada vez mais.

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Dessa vez não (ou sim?)

PH, agora já sei, você vai dar o arremate e me fazer pensar!

Errou. Esse é apenas um exercício de refletir como no nosso meio é tudo tão perto e tão distante ao mesmo tempo. O pensamento pela metade que tento elaborar é como, seja aqui, ou seja lá onde for, estamos passando pelas mesmas questões, pois é como se vivêssemos vários espetáculos ao longo do dia. Vários escritórios. Tudo já escrito por alguém (ou algo). Como se fôssemos, de certa forma, vários simulacros sociais escondidos em vários meios sociais: a loja de carro, o escritório de TI ou o escritório de Design.

Será por isso que histórias cheias de clichês, tipo um “Friends”, têm tanto apelo?

Penso que sim. Não só “Friends” como outras sitcoms e vários animes que sigo também. É fácil encaixar meus amigos em “Haikyuu”, mesmo quase nenhum deles jogando vôlei (sim, é um anime de vôlei e também o melhor que já vi). Porque não é sobre vôlei, como um dia respondeu um sábio amigo meu para alguém que tentava minimizar a beleza intrínseca de “Haikyuu”, é sobre relações sociais, ele respondeu. O vôlei ali era usado apenas como o palco do espetáculo onde aquelas pessoas irão viver uma peça.

Tanaka, um dos meus personagens favoritos do meio para frente da história, além do alívio cômico, é o fanfarrão, mas ao mesmo tempo medíocre (na média, como ele mesmo fala). Em apenas um personagem foram me dadas três características que podem me fazer encaixar quatro ou cinco amigos no arquétipo de Tanaka. Inclusive sua evolução! Tanaka, num momento, decide não ser mais medíocre por um segundo, em um plano maravilhoso (no mangá) no qual ele sobe escadas e tenta finalmente ir além do que sempre foi.

Parei! Se me deixar eu fico três dias falando de “Haikyuu”. Voltando…

Nossa própria experiência de vida nos leva a gostar daquilo que conseguimos identificar facilmente. Nos reconhecemos nessas figuras arquetípicas porque, de muitas maneiras, somos moldados o tempo todo por elas. Quando começou? Não sei. Dentro de casa? Não sei mesmo. Joseph Campbell, o estudioso dos mitos, pai da tal “jornada do herói”, talvez até explique quando fala da jornada em si.

Estamos passando por desafios, experimentando revelações e alcançando transformações que são, em sua maioria, muito parecidas. É uma espécie de monotrilho, ou vários monotrilhos cujos caminhos ora levam aos mesmos lugares, ora levam a lugares diferentes. Mas o trilho em si, esse é sempre igual. Decidimos nesse meio do caminho usar um ou outro uniforme diferente. Um ou outro arquétipo diferente. Uma ou outra caixinha diferente no escritório onde habitamos. Mas não deixa de ser igual ou parecido ao de outros que por lá já estiveram, nesse monotrilho.

Cada um de nós desempenha um papel em nosso próprio “espetáculo” (via de regra somos protagonistas, mesmo não percebendo, como “Joan is Awful”, episódio 6×01 de Black Mirror). O problema é quando há um anulamento mediante o espetáculo, mediante o “texto pedido”. Isto é, aceitamos tanto o papel que esquecemos de pensar sobre o todo, sobre a peça, sobre o roteiro inteiro e, assim, acabamos sendo usados pelo “espetáculo” apenas para preencher funções e seguir esse monotrilho.

“Quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo.” (Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo)

Estamos imersos em um “espetáculo” de imagens e representações, mas não temos a capacidade de escolher como nos engajamos. Poucos tem – papo longo! Podemos ser levados a desempenhar certos papéis, mas nem sempre somos levados a questionar, refletir e, talvez, redefinir esses papéis. A frase “ponha-se no meu lugar” não funciona nem para o melhor dos empáticos. Ainda que sintamos a dor do outro, ou até a alegria do outro, é outra história, é outro lugar. Por ironia, um lugar sempre aparentemente preenchido, igual e diferente ao mesmo. Preenchido por você ou pelo outro. Mas preenchido sempre.

Quase sempre os mesmos lugares pairam ao nosso redor e nem sempre conseguimos vivê-los conscientemente. É preciso observar, seja o quadro de avisos, seja as mesas ao nosso redor. Caso contrário, quando percebermos, já haverá passado o capítulo onde Tanaka descobre que pode ser acima de medíocre, ou simplesmente aceitar aquela mediocridade porque, agora sim, seria sua escolha. Ou não, porque pode ser também só mais um clichê como sempre foi.